Não se pode minimizar o impacto que Raul Alfonsin, presidente da Argentina exercerá, no Brasil, sobre duas questões fundamentais: dívida externa e eleições diretas. A partir de seu discurso de posse em dezembro estará criado um novo critério internacional, para se avaliar o desempenho econômico e político do governo Figueiredo. Avaliação que será feita não só pelos brasileiros, civis ou militares. Mas sobretudo pela comunidade internacional: países latino-americanos vizinhos e banqueiros internacionais inclusive.
Se Alfonsin conseguir prazo de carência para pagar a dívida, redução ou estabilização da taxa de juros, ou ainda fixação dos preços dos produtos de exportação, a política de Delfim Neto estará ameaçada. Pois até hoje o Planalto e o Presidente estão convencidos que ela é a única possível. Deixará de sê-lo. O País inteiro estará fazendo as contas para saber o que poderia ter sido evitado em desemprego, falências empresariais e desnacionalização se Delfim tivesse conseguido antes o que Alfonsin terá conseguido então. A política econômica do governo Figueiredo terá de mudar. O que necessariamente não significa que mudará o Ministério. Provavelmente, não. Pois com sua anética sem-cerimônia pragmática, Delfim Neto mudará a política econômica tendo em vista as novas circunstâncias internacionais. De
resto faltará menos de um ano para o Brasil ter novo presidente. Por que mudar ministro em fim de governo?
O que Alfonsin obtiver em matéria de dívida externa não terá sido por falos econômicos novos. Terá sido, com certeza, pela nova base de legitimidade política da presidência argentina: os votos diretos dos argentinos. Voto direto que teve um pressuposto fundamental; os militares não apoiaram um partido, ou um candidato especialmente. Não é exatamente isto o que estaria no pensamento nigeriano de Figueiredo? Desvincular, a si e aos militares, do PDS e da sucessão? Vincularem-se apenas ao processo democrático? Eleições diretas sem candidatos ou partidos avalizados pelos militares?
Demonstrar que existem alternativas à política de~Delfim, Beltrão tentou dentro do próprio governo. Delfim torpedeou-o com perícia. Agora Beltrão está tentando fora do governo. Mas caberá a Alfonsin demonstrar também, longe dos torpedos da Seplan, que o Brasil pode ter outra política econômica. Demonstrará mesmo?
(Joaquim Falcão)
_20/11/1983_