Como a Previdência Social, o governo João Figueiredo também tem problemas conjunturais e estruturais. A saída de um ministro e sua substituição por outro é apenas problema conjuntural. Para qualquer governo, em qualquer lugar. Mas este problema conjuntural pode estar apontando para um problema estrutural. E é por isto muito mais do que pelo déficit da Previdência, que a saída de Beltrão é extremamente grave. Pois revela ao ar livre grave problema estrutural do governo Figueiredo.
Problema estrutural é aquele que ninguém vê, mas que tem importância fundamental. Não se vêem por exemplo as estruturas de um edifício. Mas quando elas estão com problemas, o edifício todo se ressente. São as estruturas, por exemplo, que determinam o número dos andares que o edifício sustenta. O que sustenta um governo? E sua capacidade de tomar decisões. Ou melhor, é a sua maneira de tomar decisões. Pois todo mundo sabe que a maneira como se toma uma decisão influencia, e muito, o resultado desta decisão. Decisões tomadas apressadamente, em geral, dão errado. Como dão errado as decisões tomadas sobre dados falsos. Com a saída de Beltrão, o País se dá conta, mais uma vez, que existe um vício estrutural no processo de tomada de decisões no Planalto.
que a Sepian manda e desmanda, todos sabemos à exaustão. Interessa é saber que
este poder absoluto só é possível na medida, entre outras, que existam duas condições básicas. Primeiro, que o Ministério de Figueiredo não se reúna nunca. Como é que um exército pode ganhar uma batalha se seu estado-maior não se reúne? Como é que um time de futebol pode vencer o jogo se os jogadores não se reúnem antes? A consequência grave deste processo é que sem reunião o general não manda. Nem manda o técnico. Manda em geral o jogador que grita mais alto em campo, ou o soldado mais afoito. Mas o time, provavelmente, perde.
A segunda condição é que apenas um controle as informações. Apenas um ministério, por exemplo, controle orçamentos, os índices, as negociações com o estrangeiro, o fluxo do tesouro nacional, o déficit da Previdência, que é um problema grave, entra no caso como Pilatos no credo. O papel de Beltrão era muito mais importante junto ao Planalto. Representava a possibilidade de o Presidente e seus colegas se informarem sobre políticas econômicas alternativas e sobre o que pensa expressiva parte do empresariado brasileiro. Com a saída de Beltrão, fecha-se mais uma porta de comunicação entre João Figueiredo e o Brasil.
(Joaquim Falcão)
_15/11/1983_