Pode parecer complicado, mas não é. Pode parecer muita imaginação, mas também não é. No fundo, no fundo, o salário do recifense Severino, e do brasileiro em geral, será estabelecido por um senhor que quase ninguém conhece. Mas que interfere na vida de todos. E o diretor geral do FMI, Jacques de Larosière. É ele quem pressiona a Seplan. Que pressiona o Presidente. Que pressiona o PDS. Que pressiona o Congresso. Que aceita ou rejeita as fórmulas do FMI, traduzidas no português amargo dos decretos-leis.
Daí porque, mesmo de longe, é preciso conhecer os problemas do sr. Larosière. Que não são poucos. Dois pelo menos são bastante graves. E envolvem o Brasil. Um deles é que o sr. Larosière, nos últimos meses, acalmou os banqueiros. Garantiulhes que se chegaria ao acordo FMI-Brasil. Avalizou moralmente as negociações em curso. Se der errado, o sr. Larosière vai perder prestígio, que já anda meio abalado, pelas cartas de intenções anteriores não cumpridas. Sua administração vai ser criticada. Pelos banqueiros e governos desen
volvidos credores. Capaz até de complicar o aumento de capital do FMI, seu objetivo principal.
O outro problema é que até então, o que os. Larosiere acertava, a Seplan impunha ao Brasil. E pronto. Hoje, a insatisfação dos empresários, o descontentamento velado mas evidente dos ministros da área social, os protestos dos governadores, a oposição da classe média e dos trabalhadores e a recusa do Congresso apontam para uma situação nova. Acertar os ponteiros com a Seplan, não é mais necessariamente negociar com o Brasil. Mesmo que a Seplan consiga aprovar o novo decreto-lei, há um fato novo. O sr. Larosiere arrisca-se a colocar sua própria administração no FMI em jogo. Na medida em que está negociando com um representante brasileiro — a Seplan — cada vez mais isolado da Nação e do próprio governo.
(Joaquim Falcão)
_30/10/1983_