Airma-se agora que o País necessita de uma política salarial definida. Exigência inclusive dos credores internacionais. Ledo engano. O País não precisa não. Já tem. Só não vê quem não quer. Como já tem uma política industrial, uma política agrícola, uma política fiscal, uma política de desenvolvimento do Nordeste etc. etc… Já tem. E há muito tempo. E uma política esquisita, é verdade. Muda a cada seis, digo, a cada três meses, digo, a cada viagem internacional das autoridades financeiras. Mas faz anos que temos estas políticas. E parece que está dando certo. Certíssimo. Ao menos, é a única conclusão possível a se retirar dos sucessivos decretos-leis sobre a nova política salarial.
O mínimo que se pode esperar das autoridades e cidadãos, é que aprendam com os fatos. Se o automóvel entra na contramão na avenida Ipiranga e o motorista sai ileso, o menos que se pode exigir é que não entre mais na contramão. O acidente será inevitável. Colocar bolo no forno por mais de duas horas, queima. O mínimo que se pode exigir da cozinheira é que não repita este fato. Paradoxamente. O Planalto e a Seplan parecem ignorar esta regra elementar da vida humana. Continuam a produzir decretos-leis que não vão ser aceitos pelo Congresso, onde o PDS é minoria. É uma impertinência olímpica.
Mas será mesmo? Será que a Seplan e o Planalto são tão impertinentes assim? Ignoram tanto as regras básicas da vida? Provavelmente, não. Aliás, decididamente, não. Donde, só resta uma conclusão. A altão rotatividade dos decretos é conveniente. É útil: econômica e politicamente. Ou será que alguém ignora que o poder da Seplan reside justamente no fato de continuar mudando o que quiser, quanto quiser e quando quiser? Ou será que alguém ignora que como não há receita de planejamento para combater a inflação, o importante é ir experimentando? Experimentando um decreto aqui e outro ali? Ou será que alguém ignora que baixar um decreto-lei, com vigência imediata e apreciação pelo Congresso seis meses mais tarde, não seja a situação ideal?
Enquanto não houver negociação prévia sobre os decretos-leis ou enquanto os decretos-leis não forem apreciados logo depois de sua publicação, não se pode acreditar muito nesta estória de que o País precisa de uma política salarial. Isto é estória para inglês ver. Quer dizer, para credores internacionais e oposição nacional verem. Nada mais.
(Joaquim Falcão)
_22/10/1983_