Fato raro. Raríssimo. Às nove da manhã, do dia seguinte à condenação dos assassinos de Pedro Jorge, não se encontrava no Recife e Olinda, jornal à venda. Tudo vendido. Leu-se por empréstimo dos vizinhos. E pelo menos a imensa maioria dos leitores estava satisfeita e aliviada. Fez-se justiça. Este fato aparentemente banal, tem significado tremendamente importante. Mostra claramente que o povo brasileiro apóia. Mais ainda. Necessita de instituições judiciais que funcionem. O País necessita de inquéritos concluídos. De processos com amplo direito de defesa. De julgamentos com acesso do público e farta informação dispensível.
O País saiu dos tempos amargos do autoritarismo. Onde repressão e subversão faziam justiça com suas próprias mãos. Ou melhor, com seus próprios ódios. Para uma abertura política, que tropeçou, de saída, no episódio do Riocentro. Quer dizer, passou-se da justiça selvagem feita pela lei do mais forte para os inquéritos inconclusos ou que somente a poucos convenciam. Situação que trazia, como traz ainda, grande insegurança para os cadãos. E agravada pelas sucessivas eventuais fraudes financeiras impunes envolvendo instituições de que o País não pode abri mão; o BNH, o Banco Central, o Banco do Brasil, a Sepla; etc… E atingindo
ministros, empresários, diretores de empresa pública. Trocou-se a impunidade de alguns pelo descrédito de instituições e de autoridades. Preço claro. Solapa-se a moral, o ânimo e o sentimento cívico de qualquer cidadão. Nem precisa ser cidadão especial: moralista ou liberal intolerante. Solapa até o sentimento cívico do cidadão comum.
Com o “júri da mandioca”, ficou também no povo a sensação de que assistiram a um espetáculo. A uma atuação extraordinária do Judiciário. Não tivesse o caso ganho dimensão política nacional, provavelmente o processo teria sido engavetado. Ou nunca seria concluído. Pois o ordinário do Judiciário é a morosidade, a relativa ineficiência e a condenação apenas dos acusados mais pobres e menos poderosos. Neste sentido, o apoio popular ao “júri da mandioca” pode ser entendido de duas maneiras. Como um apoio aos momentos extraordinários do Judiciário ou como um apoio para que os momentos extraordinários sejam cada dia mais ordinários. E o Judiciário se afirme quotidianamente. Ou seja, reforme-se e aja.
(Joaquim Falcão)
_16/10/1983_