No final da última reunião da Sudene, o governador de Pernambuco pediu da palavra. E surpreendeu. Alegou sua condição de governador e de cidadão. Repudiou a ingerência das autoridades estrangeiras nas decisões nacionais. Repudiou as sucessivas pressões das autoridades norte-americanas sobre o Congresso Nacional a propósito do decreto-lei 2.045. O fato do repúdio vir de um governador do PDS, já é significativo. Mas existe outro aspecto a ressaltar. Este é um degrau no esforço do governador em ocupar liderança nacional. De uma só tacada atinge dois objetivos.
Primeiro, o País está pronto para lideranças nacionalistas. Não as lideranças do passado. Mas lideranças que defendam um processo de decisão nacional. Que não cedam. Ou concedam na mesa de negociações. Não é só dizer o petróleo é nosso. A Amazônia é nossa. Fora de Carajás. Ou banco estrangeiro no mercado nacional não entra. Pode até resultar nisto. Mas é sobretudo dizer; a decisão é nossa. Negociar, sim. Aceitar ingerências, não. O Planalto é hoje uma liderança sem líderes. Não somente pela disputa interna. Mas porque há muito perderam a sintonia com os cidadãos. Isolaram o presidente do resto do Brasil.
Segundo, todo mundo sabe que a pressão dos norte-americanos é em cima do Congresso. Querem transformá-lo no responsável pelo caos que se aproxima. Quando todo mundo sabe que o
responsável é este pacto entre Seplan e FMI de concordarem sempre no impossível. O que deteriora a economia nacional e beneficia larga e gananciosamente os banqueiros com juros sempre altos. O governador não embarcou nesta canoa. Acima das eventuais divergências salutares entre Executivo e Legislativo, coloca-se a necessidade de preservar a soberania nacional. Como membro de um Executivo estadual, o governador fez o que o Executivo federal deveria ter feito. E não fez. Defendeu a soberania nacional.
Existem momentos onde a defesa da soberania nacional se impõe. E pode exigir do Executivo defender até mesmo um Congresso que lhe é adverso. Pois ao atingir a soberania, atinge-se não apenas o Congresso, no caso. Atinge-se a todos. A civis e militares, Ao Executivo também. Sobretudo quando silencia.
Independente de sua administração em Pernambuco, com grandes problemas, Roberto Magalhães vai ocupando um vazio espaço nacional. Vazio deixado pela oposição confusa e pela inapetência oficial, controlada por mesquinha visão das relações entre Executivo e Legislativo. Cunha liderança nacional. E agora, nacionalista.
(Joaquim Falcão)
_04/10/1983_