Existem pelo menos três grandes evidências neste caso Juruna. Primeiro, é evidente que nada justifica o comportamento do deputado. É evidente também que para Juruna, como lembrou o governador Tancredo Neves, o peso das palavras é outro. Não é igual ao nosso. Não é preciso ser sociólogo ou antropólogo para constatar. Sua formação, seus valores, seu raciocínio são outros. Mas é evidente, também, que a cada dia crescem as denúncias de corrupção, sobretudo a nível do Executivo Federal.

Se essas denúncias não são suficientemente esclarecidas, dissemina-se, perigosamente, a crença em sua veracidade. A questão fundamental não são as denúncias. E a não apuração suficientemente esclarecedora. Seja para punir o denunciado ou o denunciante leviano. O fato é que os inquéritos instaurados, os processos abertos e os desmentidos oficiais não estão convencendo o público de nada. Ao contrário, a crença generalizada é que são abertos para apenas cumprir formalidade. E adiar o problema. Até que a imprensa esqueça ou surja outro escândalo.

Assim tem sido. Aqui por cima, o escândalo da mandioca, com fraude e assassinato,
arrasta-se sem conclusões. Aí no Sul, sucedem-se Capemi, Coroa, Delfin, polonetas etc… A não apuração pode beneficiar um ou outro: o denunciado culpado ou o denunciante leviano. Mas com certeza ninguém ganha. Não ganha o governo, porque passa-se a não se distinguir os honestos dos corruptos. Os responsáveis, dos irresponsáveis — corrói-se a credibilidade do todo, em nome de salvar a parte que eventualmente errou.

Pior ainda. Não ganha a Nação porque o exemplo: vem de cima. Dissemina-se a crença generalizada na impunidade e no não funcionamento das instituições. Expressa-se uma crise moral muito mais ampla, que extrapola o limite de um problema setorial. Atinge o governo em seu todo-e solapa a moral da Nação. De uma forma tosca, imprópria e injusta, Juruna pode estar expressando um sentimento a favor de um padrão de moral que independe de inquéritos não concluídos. Baseia-se no senso comum.

(Joaquim Falcão)

_02/10/1983_