O programa do PMDB na TV já está dando o que falar. Não pelo que irá ao ar. Mas pelo que não irá. Informações disponíveis indicam insatisfação por parte de setores do partido, com a escolha dos que irão falar. Entre os que não teriam esta oportunidade, estaria Miguel Arraes.

O que está em jogo, não é a avidez em torno de cinco ou seis minutos de televisão. A abertura política está aí. Chegou na televisão também. Os políticos podem com suficiente liberdade e mesmo regular frequência, comparecer e falar nos programas quotidianos. Está em jogo algo mais amplo.

Concorde-se ou não com Miguel Arraes, o fato simples é que se trata de um líder nacional. E mais. Dentro do PMDB, queira-se ou não, Arraes tem todos os títulos para ser o principal representante das esquerdas independentes. Assim o legítima tanto o seu desempenho histórico quanto seu presente de deputado mais votado por Pernambuco. Do mesmo modo que é razoavelmente inconcebível pensar numa oposição liberal sem Tancredo Neves, é inconcebível pensar numa esquerda independente sem Miguel Arraes. Como alerta o deputado

Fernando Lyra: a identidade do PMDB passa necessariamente por Arraes e Tancredo. É esta convivência que faz a frente, que faz o partido.

Enganam-se os que acreditam que a presença cada vez mais nacional de Arraes é uma reivindicação pessoal do próprio Arraes. Não é. Muito menos é uma reivindicação conspiratória de setores do PMDB de Pernambuco, que gostariam de ver a área local menos conturbada. Não é tão pouco. A maior presença nacional de Arraes é exigência da própria identidade partidária do PMDB. Capaz de ajudar a sair deste amorfismo em que se meteu. Hoje, paradoxalmente, a oposição mais frequente ao governo Figueiredo vem muitas vezes do próprio PDS. Exceção feita a uma iniciativa aqui e outra acolá, o PMDB não tem conseguido provocar nenhum fato político nacionalmente importante. De qualquer modo, por enquanto, a maior presença no programa do PMDB já é a ausência de Arraes.

(Joaquim Falcão)

_20/09/1983_