Aparentemente a queda de Julien Chacel, (se for confirmada), responsável pelos índices econômicos da Fundação Getúlio Vargas, e a de Carlos Langoni, nada terão em comum. Mas terão, e muito. Ambas resultam do mesmo processo. O processo pelo qual a Seplan quer controlar toda a informação sobre a economia nacional. O afastamento de Chacel seria muito mais grave do que o de Langoni. Este, por dever do ofício, se discordava, e quando discordava, o fazia nos gabinetes a portas fechadas. Da porta pra fora era só unanimidade, até o dia do “vóu-me embora”. Já Chacel sairia por não concordar em deixar de publicar os dois índices da inflação — o índice expurgado e o real. A importância desta publicação é que ela servia de orientação às decisões de investimento dos empresários e dos cidadãos. E também dos crédores internacionais, FMI inclusive. Agora vai ser mais difícil saber qual foi a inflação real. Em outras palavras, com a renúncia de Langoni controla-se a informação a nível do Planalto, de alguns empresários privilegiados e dos credores internacionais. E com a não divulgação dos dois índices controla-se toda a sociedade, nacional e internacional.

Neste ponto o feitico pode virar contra o feiticeiro, pois a cada dia estreita-se mais a possibilidade de o próprio FMI ficar corre-
tamente informado sobre a situação brasileira, pois inexistir princípio moral ou econômico que garanta que o próprio FMI não estará sendo como a maioria dos brasileiros, vítima também do controle de informações sobre a situação da economia nacional. E aí o paradoxo: em nome das metas do FMI controla-se as informações que induzem comportamentos econômicos não desejados pelo acordo com FMI, o que por sua vez impossibilita saber se o acordo foi ou não cumprido. É a mínica econômica.

A consequência deste processo são, entre outras, duas: primeiro, depositaria na mão de poucos privilegiados as informações reais, o que possibilitaria o tráfego de influência, a corrupção, e a prática política perversa. No segundo momento porém, ninguém, nem mesmo os donos do poder, isto é os donos da informação vão ter informações sobre a realidade econômica. Na medicina dá-se o nome de esquizofrenia ao processo pelo qual o indivíduo se desliga mentalmente da realidade, passa a viver com outras informações, em outro mundo, um mundo imaginário. A mímica econômica corre este risco. E o País também.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 11/09/1983_