Nem sempre apreende-se, de uma só vez, o significado total dos pronunciamentos dos ministros militares. As vezes, este significado só ficara claro no correr do tempo. São pronunciamentos em geral concebidos em termos elevados, de grande abstração, reafirmando ideais e dando coesão às Forças Armadas. Focalizam normalmente o papel das Forças Armadas no contexto brasileiro do momento. Mas, necessitam de um certo período de decantação. Por esta razão, a cada dia ganha um significado a ordem-do-dia do ministro do Exército, comemorativa do Dia do Soldado lida no última 25 de agosto. Nela, o ministro aludiu às qualidades de Caxias, como estadista, que deveriam servir de exemplo a todos os militares no desempenho de função pública. Estas qualidades são, textualmente: equilíbrio, probidade, desprendimento, lucidez e desambição pessoal.
Quem quer que compare esta ordem-do-dia, com as dos anos anteriores não poderá deixar de notar esta ênfase nas qualidades individuais do militar. Qualidades que, de resto, o ministro, como de seu feitão, exemplifica-se discretamente. Em 1980, o ministro enfatizou a importância do Exército na modernização, no desenvolvimento econômico e no projeto de abertura política. Em 1981, refletindo o clima de distensão promovido pelo presidente Figueiredo, o ministro enfatizou que anistia, concórdia e união nacional não eram gestos estranhos à vida
militar. Em 1982, quando se implantavam as eleições diretas, o ministro reafirmou a união em torno de seu chefe. Em 1983, porém, os temas políticos e econômicos desapareceram. Cederam lugar à ênfase nos atributos pessoais do militar.
Esta ênfase pode ter sido intencional ou não. Nunca o saberemos. Mas, sem dúvidas expressam os atributos que os brasileiros desejam para civis e militares no exercício da função pública. Mais ainda, reflete uma grande preocupação da maioria dos cidadãos brasileiros hoje.
Pois dificilmente o País está assistindo a um espetáculo de desambição pessoal nesta correria de candidatos de si mesmo em torno da sucessão do presidente Figueiredo. De candidatos de grupos fechados ou de cúpulas partidárias. Como dificilmente o País está assistindo a um espetáculo de probidade na condução da vida pública. A não apuração dos sucessivos escândalos — mandioca, Delfin, Coroa, Capemi, polonetas etc. — impede que se possa acusar quem quer que seja. Mas não impede que se crie pelo menos um grande mal-estar. Não somente entre os que têm os nomes envolvidos nestes episódios. Mas, entre todos que participam da administração pública, civis e militares.
(Joaquim Falcão)
_04/09/1983_