Não é a primeira vez. Provavelmente não será a última. No século 18, 2 aristocracia olindense e os comerciantes recifenses já se engalfinharam na conhecida Guerra dos Mascates, Agora, andam brigando outra vez. Na verdade, não é bem Olinda contra Recife. É a Prefeitura de Olinda contra o governo do Estado de Pernambuco. É brigam na Justiça. O motivo, alega a Prefeitura, é que o governo estadual não paga os impostos que deve ao município. Pois o governo é proprietário de dois grandes imóveis no município olindense: o muitas vezes bilionário. Centro de Convenções, até hoje inacabado, embora já funcionando (testemunho vivo da distância entre imprevidência e possibilidade) e a elegante e envidraçada sede da Cohab, construída, paradoxalmente, graças à remoção das populações pobres que há anos marginavam a avenida Agamenon Magalhães com seus mocambos. Nem a Cohab nem o centro pagam o imposto predial que devem. O juiz deu ganho de causa a Olinda, na primeira instância: penhorou as cadeiras do pantagruélico centro de convenções. E como a dívida continua a crescer, a Prefeitura pretende agora penhorar as rendes do centro.

Á dívida é antiga. Crecece desde antes do governo Marco Maciel. O que explica, mas não justifica. Pois administração pública não é táxi. A cada novo passagiro que entra, a cada novo governo que se empossa, começa tudo do zero
outra vez. Herda-se o ativo, mas o passivo também, das administrações anteriores.

Tudo não passaria de mais uma escaramuça provinciana, se este episódio não fosse altamente ilustrativo de uma característica do governo no Brasil. Seja no Brasil de Pernambuco, Brasil de São Paulo. Ou seja no Brasil de Brasília. Vejam, por exemplo, o caso da Cohab. Toda semana, a Cohab vai para os jornais e televisão exigindo que seus mutuários paguem em dia as prestações que devem. Mas, ela é a primeira a não pagar suas obrigações. E não se alegue que não paga porque o caso está na Justiça. O que é verdade. Mas também é verdade que o caso foi parar na Justiça muito mais como medida protelatória, do que como necessária discussão sobre direitos. A Cohab quer tirar vantagem do legalismo jurídico e da morosidade judiciária. E exatamente como colocou, corajosamente, o empresário Antônio Ermírio de Moraes. Como solucionar a crise brasileira se o exemplo não vem de cima?

Se os que tem que cobrar obrigações dos cidadãos, não cumprem com as suas? O País precisa é superar a época onde o ideal de cada um era levar vantagem sobre outro. Não deu certo

(Joaquim Falcão)

_23/08/1983_