A indústria de construção em Pernambuco, se ainda não parou de vez, está quase parando. De cada 100 trabalhadores que empregava em junho de 1982, emprega hoje apenas 13. As causas desta crise são várias. A política de recessão com inflação e exportação do governo federal é uma delas. A outra é a política do governo estadual de suspender os pagamentos que deve. Desde março, nem a Cohab, nem a Emoper, nem o Departamento de Estradas de Rodagens, nem a Suape estão pagando o que devem. Agravando a crise do setor. Agravando o desemprego urbano.

A primeira vista, estaríamos diante de amarga herança deixada pela administração anterior, de Marco Maciel. Os dados disponíveis, porém, sugerem o contrário. Pelo menos no caso da Cohab. Durante o governo Marco Maciel investiram-se em habitação popular cerca de 200 bilhões de cruzeiros. A dívida não paga da Cohab é de cerca de 2 bilhões. Ou seja, no máximo 1 ou 2 por cento dos investimentos foram deixados para ser pagos pela administração Roberto Magalhães. O que, convenhamos, é extremamente razoável. O que de fato estaria acontecendo, segundo os empresários do setor, é que a Cohab estaria financiando o seu déficit operacional com recursos do BNH. Recursos que deveriam ter sido repassados aos empresários, liquidando as dívidas. Este déficit operacional da Cohab é explicável. Resulta
da redução dos investimentos, da-inadimplência dos mutuários e provavelmente das medidas eleitorais. Resta saber quem tem que sustentar este déficit. Por enquanto quem sustenta é a indústria de construção. Sustenta mesmo. Pois quando recebe as faturas, recebe tudo sem juros e correção adequados. Esta responsabilidade, é claro, é do próprio governo do Estado. Que das duas uma; ou reduz os custos operacionais da Cohab, ou lhe aporta mais dinheiro. A Cohab da Paraíba, por exemplo, negociou um terreno com o governo do seu Estado e equacionou o problema. Pelo menos temporariamente.

O quadro é o mesmo com a Suape. Segundo os empresários, o governo Roberto Magalhães ainda não pagou um tostão do que deve. O empréstimo em dólar ainda não chegou. Em outras palavras, quem está sustentando a imprevidência e megalomania da Suape são os empresários e os trabalhadores demitidos. Não se trata evidentemente de afirmar que o governo Roberto Magalhães não paga por gosto ou seja insensível a esta situação. Com toda certeza não é, Mas as consequências reais são essas aí.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 10/07/1983_