Enquanto prática cotidiana, nenhuma empresa privada resistiria. Mas o fato simples é que o regime brasileiro pretendeu se consolidar através da permanente imobilização de seus passivos. Seja o passivo administrativo. Seja o passivo financeiro. Seja o passivo político.

A imobilização do passivo foi muito usada quando um presidente sucedia a outro. Quando um ministro sucedia a outro. E até quando um diretor de empresa pública sucedia a outro. E prática de muitos aspectos. No setor administrativo, por exemplo, se o funcionário público tinha sido incompetente, ao contrário do que ocorría na empresa privada, onde provavelmente seria despedido, no setor público ele era removido, transferido ou emprestado. Se a administração anterior iniciava obra faradônica, improdutiva, de retorno financeiro invitável, a nova administração não parava a obra e apurava as responsabilidades; ao contrário, acabava de qualquer modo, para não perder o … investimento já feito.

Na área financeira, foi a prática de todo dia. Diante de uma financeira insolvente, ou de uma indústria deficitária, em vez de deixar o mercado absorver as perdas e os responsáveis serem responsablados, o gover
no agiu diferentemente. Criou fundos especiais com recursos públicos (que deveriam ser usados de maneira produtiva), para absorver a especulação, imprudência ou incompetência do empresário amigo da autoridade. O ponto culminante desta prática é agora um banco federal querer “ajudar” uma multinacional que não tem mais mercado para seus tratores.

A política não passou incólume à imobili-
zação do passivo. Se o novo presidente discor-
dava ou não gostava de antigo ministro,
promovia-o a embaixador. Se o governador
que saía brigava com o novo, era escolhido
diretor de autarquia federal. Se o militar não
consegula a promoção necessário, era convidado para ser civil na empresa pública ou
privada. Se o deputado não se elegia, era
nomeado para o Tribunal de Contas.

O resultado está al; o déficit público, o descrédito internacional e a crise política. De resto, a imobiliização do passivo foi prática injusta para os cidadãos civis e militares do governo ou da oposição, empresário ou trabalhador que procuraram ser honrados e competentes

(Joaquim Falcão)

_28/06/1983_