Não é só o FMI que traz problemas ao Brasil. O Brasil também traz problemas para o FMI. Não se trata evidentemente da pretensão, que não faz muito tempo grassou, de que o problema brasileiro era problema mundial. Problema que exigiria do FMI não uma solução específica, mas a redefinição de todo o sistema financeiro internacional.
Justiça se faça, a crise brasileira é produto também da atual estrutura do sistema financeiro internacional. Hoje, porém, a possibilidade de resolver a crise brasileira resolvendo antes a crise mundial está cada vez mais afastada. Sobretudo diante da eventual recuperação da economia norte-americana. O que permitirá a Estados Unidos e FMI tratarem a dívida brasileira como caso isolado.
Os problemas do FMI para com o Brasil são pelo menos dois. Primeiro, sua missão vai ter que decidir se o fracasso deste primeiro “round”, o não cumprimento das metas estabelecidas, deve-se à má gerência brasileira do acordo, ou ao fato de as metas terem sido irreais. Pode até não ter sido de propósito, mas o fato de a atual missão ter ultrapassado os minístros e o Banco Central, e resolvido ir buscar informações diretamente na fonte, como no caso da Petrobrás, é sugestivo. A gerência brasileira do acordo pode estar sen
do avaliada. Sintomaticamente, os banqueiros internacionais explicitam sua pouca confiança nos dados econômicos fornecidos pelos ministros.
O segundo problema diz respeito à dosagem da insatisfação social com as medidas econômicas que estão sendo propostas. De quinze dias para cá, o clima do Pais é outro. A insatisfação político-social é regra geral. Cada vez mais a política econômica é política solitária. Cada vez mais revela-se mais ineficaz. Nem paga a dívida, nem controla a inflação, nem cria emprego. Uma visão simplista diria que os brasileiros são contra a política do FMI porque contraria o interesse de todos; dos empresários aos trabalhadores. Do governo à oposição. A insatisfação social porém parece ter outra base. A de que a sociedade está fazendo um sacrifício inútil diante de política ineficaz.
Para o FMI a questão então é saber se vale a pena correr o risco de ter na América Latina nova crise política, o que pode advir, pela crescente Insatisfação social. Para Reagan, certamente não vale, Eastam Nicarágua e El Salvador.
(Joaquim Falcão)
_21/06/1983_