Suicidou-se um dos principais industriais do setor têxtil no Brasil: Antônio Carlos Menezes. Antes de morrer, escreveu do próprio punho um bilhete: “Peço encarecidamente às autoridades de meu País que não permitam que os operários e funcionários desta empresa passem privações. Recife, 10 de maio de 1983. Antônio Carlos Menezes.” É que suas empresas congregavam cerca de 3.500 funcionários, responsabilizando-se direta ou indiretamente por cerca de 15.000 pernambucanos e alagoanos. A sociedade nordestina está chocada. Trata-se de suicídio causado por problemas individualis. O suicídio, neste caso, é a expressão última do medo e da sensação de impotência da maioria dos brasileiros. O que está em causa não são os eventuais erros ou acertos de um empresário ou de um setor da eco-nomia. O que está em causa é algo bem mais abrangente.
Primeiro, está em causa a capacidade da política econômica ser definida por brasileiros, com a participação de brasileiros,
sejam operários ou patroes, do governo ou da oposição. O setor têxtil pernambucano, os industriais e comerciantes nacionais, além
dos trabalhadores, há muito que tentam influenciar os rumos da política econômica. Haja ver a persistente, e infelizmente in-
ficaz, pregação contra a política de juros. Sugere-se, dialoga-se, ameaça-se, e nada acontece. Inclusive agora ex-ministros não se cansam de advertir o governo Figueiredo sobre os danos que esta política está trazendo ao País. Mas Brasília permanece imune e silenciosa. A cada dia que passa, esta política privilegia cada vez menos brasileiros, às custas de cada vez mais brasileiros. Será esta a inevitável rota do saneamento da economia? Deve o Brasil pagar um preço tão caro?
Está em jogo também a propalada disposição do governo federal de apolar o Nordeste, seus empresários e trabalhadores. Não estamos diante de um caso Delfin/BNH, nem um caso Capemí. Estamos diante de sucessivas tentativas de um setor da economia pernambucana em buscar junto ao governo federal ajuda para passar a crise. O governo divide-se em promessas retóricas e mudez na ação. Liberar uma verba é uma via-crúcis que obriga a qualquer um enfrentar do mistério à mentira. Do cinismo ao suborno. Alguns não conseguem. E se retiram.
(Joaquim Falcão)
_19/05/1983_