Algumas das causas do quebra-quebra de São Paulo são visíveis a olho nu: o desemprego, a fome, a atuação dos grupos radicais, a insatisfação política, etc. Outras, porém, não são tão visíveis. Nem por isto são menos importantes. Uma delas, com certeza, é a constatação da impunidade de que gozam, diante do erro, as autoridades e instituições estatais. Sejam erros cometidos de boa ou de má fé.
Nestes últimos tempos, por exemplo, a cada mês o cidadão tomou conhecimento de um grande escândalo: Proconsult, Delfin, Capemi, Baumgarten, etc. Acresça-se a estalista escândalos antigos, como o do Riocentro, o da mandioca e do farelo aqui por Pernambuco. Ajunte-se ainda os que estão surgindo diante da devassa que alguns governadores fazem nas administrações anteriores. Todos os escândalos foram fartamente noticiados nos jornais, rádios e televisão. Entrou diariamente no lar de cada cidadão. Empregado ou desempregado. Entrou, e até agora não saiu de lá. Os cidadãos não têm até hoje uma resposta clara sobre o que aconteceu. E mais: se há responsáveis, e se há punição dos responsáveis.
Em geral, as autoridades e instituições estatais envolvidas usam três táticas de defesa. Ou fazem pronunciamentos oficiais, que só satisfazem a quem os redige. Ou solicitam apuração legal, sabendo que será uma apuração de anos, e que em geral não concluem satisfatoriamente. Ou, simplesmente, esperam que a imprensa se canse e mude de assunto. Ou de escândalo. Estas táticas conseguem abafar ou adiar o escândalo. Mas, no fundo, a mensagem que transmitem aos cidadãos é a da impunidade diante do erro. A mensagem que fica é que vivemos uma era onde cada um pode errar na gestão da coisa pública, e nada ou muito pouco acontece. A mensagem que fica, na casa de cada empregado ou desempregado, é que o Pals vive uma hora do salve-se quem puder. E como puder,
Quando o BNH não explica o que houve com a Delfin, ajuda a destruir o BNH como instituição. Quando a Justiça Eleitoral não explica o que houve no Proconsult, ajuda a destruir a Justiça Eleitoral como instituição. Quando o Banco do Brasil não explica o que houve com a mandioca, ajuda a destruir o Banco do Brasil como instituição. Não é preciso ser sociólogo para perceber que o quebra-quebra de São Paulo é estimulado também pela crise moral que toma conta do Estado.
(Joaquim Falcão)