Ou este País é sério, ou é apenas um País paradoxal. Nunca atravessamos crise econômica e política tão grave. Nunca a independência econômica e a independência de nossa política externa estiveram tão ameaçadas. Nunca a atividade pública este-ve tão pontilhada de escândalos e descrédito. E no entanto nunca assistimos a quinze dias com tantos discursos chelos de boas palavras, otimismo e esperança.
A começar com o próprio presidente da República, sobre a situação econômica, sobre a trégua política, sobre a disposição de conduzir a bom termo seu projeto de abertura política. E a terminar com esta inundação de discursos dos novos governadores, todos, sem exceção, sejam do PDS ou das oposições, determinados a resolver, ou pelo menos enfrentar, boa parte dos dificeis problemas deste País.
O que diferencia estes discursos de agora dos discursos dos últimos anos é que, agora, as promessas podem ser cobradas. Não se promete impunemente. Melhor dizendo, numa democracia, política é como contabilidade: a cada crédito corresponde necessariamente um débito. Ou seja, cada crédito que o eleitor dá às palavras e programas de um candidato corresponde necessariamente ao débito do candidato eleito para com o eleitorado. Por isto, o momento agora é o de dar crédito às palavras, intenções e programas dos novos governadores. Se o débito não for depois saldado, as próximas eleições funcionarão como um encontro de contas. Muda-se a administração. Vota-se em outro partido.
Em seu discurso de posse, Roberto Magalhães, novo governador de Pernambuco, tocou em pelo menos três pontos importantes: a necessidade do combate à pobreza, a necessidade do combate aos desníveis regionais e a necessidade de a prática democrática estar no cotidiano dos cladãos. No caso, de governantes e governados. O importante, porém, é que o novo governador é o primeiro a identificar a natureza do período que nestes dias se inicia em todo o Brasil: “Estamos passando das boas palavras aos atos há muito tempo esperados. O meu governo, portanto, não se atém a promessas e a cricação de expectativas exacerbadas, e preferirá sempre a linguagem concreta das decisões e dos fatos.”
J. F.