Já se vão cerca de três anos desde que Carlos Rischbieter deixou o Ministério da Fazenda. Nem por isto seu relatório sobre as contas externas do Brasil deixa de ser atual. Não apenas porque se confirmou grande parte de suas previsões, mas sobretudo porque o episódio “Relatório Rischbieter” é muito útil para se entender como ainda hoje o governo federal toma suas decisões na política econômica.

Não custa relembrar. Em fins de 1979, Rischbíeter foi à reunião do FMI em Belgrado. Lá percebeu que a taxa dos juros internacionais iria subir, e que o preço dos nossos produtos de exportação iria baixar. Isto significava que, se medidas urgentes não fossem tomadas, propostas no relatório, as contas externas brasileiras explodiriam a médio prazo. As medidas não foram tomadas; as contas explodiram em 1982.

O importante porém foi o fato de Rischbleter ter sido acusado de contestar a política então adotada pela Seplan, e de criar divergências Indevidas dentro do governo. Por isto saiu do Ministério, Em outras palavras: encerrou-se abruptamente o debate sobre política econômica que se iniciara dentro do governo.

Em nome da racionalidade econômica, do desconhecimento de dados econômicos ou até mesmo de fidelidade revelaência, não importa desbaixo de que fantasia, a consequência foi uma só — suprimiu-se o debate, suprimindo-se o debatedor.

Desde então, e até agora, a política econômica oficial segue este caminho. Não entra no mérito dos argumentos e previsões contrárias. Prefere desqualificar o debatidor.

Enganam-se os que procuram medir o sucesso desta política pela queda da inflação, por superávits comercials ou pela desconcentração da renda nacional. Se o sucesso dependesse destes indicadores, a política econômica já teria mudado há muito tempo. O sucesso desta política se mede por sua capacidade de comparecer diante do Palácio do Planalto como a única saída para o governo, diante da crise que está aí.

Enquanto mantiver este monopólio diante do Planalto, a política econômica atual dispensa como supérflua qualquer previsão. Venha de onde vier, da oposição ou de outros ministros; que seja confirmada pelos fatos, ou não. O imperador Adriano, de Marguerite Youcenar, acreditava que ter razão antes do tempo é errado. O tempo mostrou que Rischbleter teve razão no tempo. Alertou em tempo. Não teve. Infelizmente, a até agora, foi poder. Poder para poder ter razão.