O problema da seca não é falta de água; é falta de condições da maioria dos sertanejos de enfrentarem a falta de água. Enquanto os cientistas e técnicos não aprenderam a fazer chover, pode-se jogar em Deus a culpa pela falta de chuva. Mas a falta de condições para enfrentar a falta de chuva é culpa dos homens. Não é problema divino; é problema político. Um problema de justa e adequada alocação dos recursos econômicos e técnicos.

O Pais sabe muito bem que não existe uma equitativa distribuição de recursos federais entre as regiões brasileiras. Como sabe também que os recursos econômicos, sobretudo a terra na área da seca, estão desigualmente distribuídos.

A catástrofe da seca, lembra o economista Clóvis Cavalcanti, é fruto da convergência entre pobreza e condições de solo e de clima adversas. De fato, para uns o problema da seca é apenas um problema patrimonial. É o caso dos grandes proprietários e de uns tantos pequenos proprietários. Quem tem patrimônio, propriedade rural, mesmo pequena, tem melhores condições de não se transformar em flagelado. Os pequenos proprietários, por exemplo, donos de até 10 hectares de terra, constituem cerca de 50% da força de trabalho do sertão. Mas constituem apenas cerca de 33% dos flagelados. Ou seja, enfrentam melhor a seca do que os trabalhadores sem terra, parceiros e assalariados.

O Nordeste entra no quêto ano de seca. Espanta não ter havido até hoje uma migração em massa para o Sul ou para as grandes capitais do Nordeste. As migrações ocorridas são inexpressivas diante da calamidade. A primeira constatação então a ser feita é que o Nordeste resiste à seca. Não houve ainda a grande migração.

Esta resistência não é impertinência cultural ou fruto de temperamento forte. Ao contrário, basei-se em dois fatores objetivos. Primeiro, na sua capacidade de encontrar formas privadas de sobrevivência, formas privadas de pequenas irrigações; segundo, no programa de emergência do governo federal, que paga um salário mínimíssimo para que o flagelado não amanheça todo dia em São Paulo.

Diante desta seca quintenal, espanta também que o governo não tenha encontrado ainda uma solução de médio e longo prazo para o previsível fenômeno da falta de água. Como está, o programa de emergência é um programa crônico, que vive de recursos a fundo perdido. E que permite à seca contínuar a ser para uns poucos uma questão patrimonial, e para uns muitos questão de sobrevivência física. Esta convergência entre pobreza e seca é que precisa ser vencida.

J. F.