Quando os advogados e juzes deram mais importância ao mundo legal do que ao mundo real, começaram a perder prestígio e poder. Um dos aspectos da crise do Direito e da ineficácia da Justiça é justamente a separação entre a lei e a realidade social. Aquela vai para um lado, esta vai para outro. E se juzes e advogados optam pela lei separada da realidade, passam todos a viver em mundo irreal. Em mundo utópico que não existe, embora a lei achasse que devia existir. Passam todos a viver em mundo apenas formal. E todos — juzes, advogados e a lei — perdem prestígio e poder porque não conseguem mais controlar a realidade social.
O mesmo fenômeno está ocorrendo agora com os economistas. Ao menos com os economistas oficiais, que lá de Brasília ou Nova York decidem a política econômica do governo. Estão todos há muito tempo vivendo em mundo irreal. Quem é que acredita na afirmação oficial de que a maxidesvalorização vai ser boa para todos? Qual o banqueiro que acredita que o Brasil vai ter um superávit de seis bilhões de dólares? Qual o empresário que acredita que as autoridades vão ter uma conversa séria com os banqueiros, e que daí em diante os juros vão baixar? Qual o cidadão que acredita que a inflação vai este ano para 78 por cento? Evidentemente são poucos os crentes disponíveis para tamanhas missas.
O fato de o sr. Horst Struckmeyer, do FMI, ser um desses poucos crentes não tem o poder mágico de transformar o irreal em realidade. Ao contrário, faz apenas com que o sr. Horst entre para o time dos que acreditam no irreal. Como já entrou, allás. Pois não foi ele quem declarou que o País não teria necessidade de fazer uma maxldesvalorização?
Na verdade, das duas uma. Ou os economistas oficiais não acreditam, mas fingem que acreditam, e estamos em outro reino, mas não no reino da Clência Econômica, ou estão todos à procura de um bom pretexto para justificar o inevitável. Justificar que o FMI inevitavelmente socorra o Brasil e que os bancos estrangeiros inevitavelmente continuem a emprestar a quem não pode pagar.
Resta saber se tal estratégia é boa, política e economicamente. Parece que politicamente não é. O descrédito que antes se restringia a uma ou outra autoridade alastra-se rapidamente pela equipe. Mais ainda, envolve agora o próprio FMI, que passa a ter acelto previsões imprevisíveis.
Como também não parece ser boa política econômica. Quando não se consegue aplicar uma lei irreal, a principal consequência é deixar que cada um faça justiça pelas próprias mãos. Instaura-se o reino da violência. Onde ganha sempre o mais forte. A contrapartida da lei irreal. Assim também a contrapartida da política econômica irreal é tanto a ineficiência global quanto o capitalismo selvagem.