Marcos Freire foi derrotado pelo eleitor sem voto. Pelo eleitor sem voto do Sertão e do Agreste. Os comícios de Marcos e Cid no Sertão atraíram, inúmeras vezes, mais gente que os do PDS. E gente entusiasmada. Agora, percebe-se que eram eleitores sem votos. Capazes de se mobilizarem com a presença e o discurso de Marcos. Mas incapazes de traduzirem esta mobilização em votos. Por um motivo simples. Seus votos não lhes pertencem. Estão apropriados pela estrutura econômico-política dominante na região. É verdade que todo voto, rural ou urbano, é influenciado pela estrutura econômico-política. Mas esta estrutura-no Sertão e no Agreste tem características próprias. Mistura dependência econômica com submissão eleitoral. Lá, a dependência econômica assenta-se na fome e na seca. E a submissão eleitoral no coronellsmo oficial é na vinculação legal. A mistura de vinculação é fome dificilmente faz expandir o direito do eleitor escolher seu candidato livremente.

Tal mistura produz um voto ideologicamente cego. Nem é PDS, nem é PMDB. Nem é João, nem Lula, nem Ulisses. É apenas a favor de qualquer governo, e contra qualquer oposição. Assim, em Pernambuco, alianças, táticas ou estratégias eleitorais.
adiantam ainda pouco. Quem ganha eleição é a capacidade do governo lidar com estas estruturas, e da oposição em tentar modificá-las. O PMDB tentou. Abriu diretórios e lançou candidatos em quase toda a região. Não bastou, o PDS combinou investimentos sociais com vinculação legal, e capitalizou eleitoralmente estas estruturas. Ganhou.

Mesmo assim, Marcos Freire foi o melhor candidato que a oposição poderia ter tido em Pernambuco. Por suas características individualas e por sua proposta política. Como político oposicionista manteve sempre um duro combate ao regime, sem cair no irreal radicalismo ideológico. Respondeu com dignidade e altivez à sórdida campanha de alguns que procuraram atingir-lo e à sua família. Sua proposta política defendeu para Pernambuco uma modernização pacífica, concilliando socialismo e democracia. A derrota reabre a possibilidade da polarização política e social da região. E interrompe temporariamente sua carreira. A ser retomada com certeza em 1986. Ou antes.

(Joaquim Falcão)

_09/12/1982_