Em 1962, Miguel Arraes ganhou o governo de Pernambuco (contra João Cleofas) por apenas 14 mil votos. Em 1978, Jarbas Vasconcelos perdeu o Senado por apenas 38 mil votos, ou seja, menos que 4% dos votos. Quem ganhar em novembro, estima-se hoje, ganhará ainda por margem apertada. Algo em torno de 80 a 100 mil votos, ou seja, menos que 5% dos eleitores inscritos. Neste quadro, todo voto conta. E muito. Daí porque, neste final de campanha, os partidos se preparam para enfrentar pelo menos três obstáculos capazes de influenciar o resultado: a abstencão, o voto nulo e a fraude. Destes, o mais fácil de enfrentar é a abstencão. Fácil, mas custoso. Exige que os partidos tenham carros, ônibus e caminhões à disposição no dia 15 de novembro para irem buscar o eleitor em casa. Sobretudo o eleitor do interior, que mora longe da urna.

O voto nulo que trará problema não é o de quem quis deliberadamente anular seu voto. É o voto de quem quis votar certo e votou errado. A vinculação, o modelo da cédula, e o grande número de escolhas que o eleitor terá de fazer aumentam a probabilidade de erro. E isto é faca de dois gumes. O erro tanto pode ir contra o PMDB como contra o PDS. Melhor mesmo é o eleitor trazer de casa a “cola”, ou a “fila”, como se diz aqui em Pernambuco. Traz sua chapa pronta e na cabina passa para a cédula oficial.

Para o PMDB, porém, o grande problema é a fraude eleitoral, durante a votação e depois na apuração. Não somente pela experiência passada — nas eleições de 78 para o Senado,
por exemplo, um escrutinador foi pego em flagrante adulterando votos em favor da Arena — mas também pela fragilidade da máquina eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral. Apesar dos esforços feitos, em vários municípios não se terá juiz eleitoral. A apuração será feita posteriormente pelo juiz vizinho.

Contra a fraude o PMDB conta com três trunfos. Primeiro, uma boa organização do seu departamento jurídico. Em 78, o partido tinha 1.500 fiscais. Agora, sob o comando dos advogados Fernando Correia e Paulo Henrique Maciel, o partido terá mais de 12.000 fiscais. Na apuração deverá ter na boca da urna mais de 200 advogados, treinados em cursos de direito eleitoral. Vinto mil exemplares de uma cartilha contra a fraude estão sendo distribuídos para orientar candidatos, fiscais, cabos eleitorais e advogados. O segundo trunfo são os meios de comunicação. A fraude no interior, na desconhecida Oricuri, por exemplo, não morre mais como assunto de conversa de botequim local. Pode ir ao ar, na televisão, ou ser impressa no jornal, e será fraude do conhecimento nacional. Finalmente, uma coisa é fraudar eleição para o Senado, outra é fraudar para governador. Aquele que frauda corre o risco de ter que conviver com o partido fraudado por quatro anos, aplicando-lhe a lei.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 28/10/1982_