O discurso do presidente Figueiredo na ONU parece que ganhou o primeiro “round”. Com apoio do “Washington Post” e tudo mais. Conseguiu o avál implicitó dos Estados Unidos, para o Brasil continuar a rolar a dívida externa em 1983. A crise econômica mundial está obrigando todo mundo a tirar as máscaras. Uma máscara que calu é aquela que escondia a renegociação da dívida como sendo um problema do Brasil com a comunidade financeira internacional. Não é, E problema bilateral: entre Brasil e EUA. E como problema bilateral está sendo agora tratado. O secretário de Estado norte-americano, G. Shultz, já recomendou aos banqueiros internacionais que não fechem as comportas bruscamente aos países do Terceiro Mundo, onde agora, o governo brasileiro situa o Brasil. E o secretário de Finanças de Reagan já anunciou o preço deste aval. Recomendou ao governo brasileiro “austeridade”. A tradução crioula da palavra austeridade; o próprio governo brasileiro já se adiantou em fazê-la: significa gordura, inclusive a gordura no setor público. Mas o que quer realmente dizer esta palavra tão expressiva, quanto enigmática: austeridade?
Em primeiro lugar quer dizer que o País continuará com acesso ao mercado financeiro internacional; Mas um acesso bem mais reduzido que em 1982. Não mais dezoito bilhões de dólares. Talvez uns doze bilhões.
Para captar apenas doze bilhões e sobreviver sem quebrar, o Brasil precisaria ser mais austero, sobretudo com os gastos públicos.
Neste ponto é que a porca torce o rabo. Em programa de televisão que esta semana reuniu banqueiros e o prof. Carlos Langoni, presidente do Banco Central, por diversas vezes pronunciou-se, pelo menos em voz baixa, e ainda sem muita ênfase, a palavra “custelo”. Do setor público, Ora, a principal despesa de custelo do setor público é despesa com pessoal. Reduzir custelo em dez por cento representaria, no caso, despedir cerca de cento e vinte mil funcionários federais.
Custa crer que a extensão do desemprego ao funcionalismo público federal venha resolver o problema da nossa dívida externa, Custa crer também que o governo federal implemente sem graves dificuldades políticas tais medidas. Sobretudo se considerarmos que 1984 é o ano da eleição presidencial. E que os principais candidatos do PDS estão todos dentro do Executivo: Mário Andreazza no Ministério do Interior, Otávio Medelros no SNI, Costa Cavalcanti na Eletrobrás etc, Nenhum deles vai querer que suas instituições emagreçam antes das outras,
(Joaquim Falcão)
_Recife, 07/10/1982_