Mário Simonsen, quando ministro, vez por outra passava por aqui. Defilm Neto, não. E o dono da ausência mais presente em Penhambuco. Conta-se nos dedos, quantas vezes, nestes três anos, o ministro esteve aqui. Vejo uma vez com o presidente Figuelredo. Mais uma outra, sozinho. E só. Três por quatro, empresários e políticos do governo reclamam. Gostariam que o ministro viesse ver, ao vivo, os problemas da região e do Estado. Sair um pouco da área de influência do Sul. Conversar, participar de banquetes, trocar idéias, influenciar e se possível ser influenciado. Sua ausência porém não significa necessariamente desamor. Em economia e em política, emoções contam bem menos do que resultados concretos. A ausência significa provavelmente que para seu imediatismo pragmático (e aético como lembraria Cirne Lima). Penambuco e o Nordeste não têm força suficiente para desviá-lo da rota Brasília-São Paulo-Rio-Nova York-Londres-Brasília.
A fraqueza do Nordeste diante de Delfim é tanto política quanto econômica. Para o imediatismo pragmático, como para todos, a miséria, a seca, o desemprego, a mortalidade infantil, a fome são realidades desagradáveis e injustas. São, porém, problemas que não se resolvem da noite para o dia, enquanto não se traduzirem em pressões políticas imediatas, dificilmente vão inter-terir na gestão de curto prazo da política econômica oficial. É bem verdade que a bancada nordestina controla o Congresso. Mas que adianta se o Congresso não controla a política econômica? É bem verdade também que o voto nordestino é muito mais pró-go-
verno do que o voto sulista. Mas que adianta
se o governo, para as decisões fundamentais, tem dispensado um e outro: o voto do
Sul e o do Nordeste?
A desimportância relativa da economia nordestina dentro do contexto da crise econômica brasileira é também um fato que o imediatismo pragmático constata. Não se trata de uma região de bancos ou de conglomerados industriais capazes de se impor como interlocutores necessários da Seplam. Muito menos é uma região que interesse prioritariamente ao investidor estrangeiro. Exceção felta agora a Carajás. As indústrias locais tradicionais — a indústria têxtil e a indústria agroacquareira — estão em grave crise. E quanto maior a crise, maior sua fragilidade econômica e política. O sucesso ou insucesso destas indústrias tradicionais, quando muito, causam mossa, como a recente crise do Instituto do Açúcar e do Alcool. E nada mais. Além do que a contribuição do Nordeste para o binômio importação/exportação, ou para a captação de empréstimos internacionais, é mínima.
Tudo isto coloca o empresário local e o político do PDS diante de uma situação paradoxal. Para se ter Delfim por aqui, tem-se que pressionar Delfim. Mas ousar, quem há de? Sobretudo enquanto Delfim Neto conseguir fazer com que em matéria de economia o regime, o sistema, a abertura e a fechadura sejam Delfim Neto.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 15/08/1982_