O desastre com o “Boeing” da Vasp levantou imediatamente duas questões. Será que nossa aviação comercial é segura? Até que ponto os constantes conflitos trabalhistas entre as empresas aéreas (Vasp e Varig) e seu pessoal geram insatisfação dentro das empresas, aumentando o risco de acidentes? Não é difícil responder a estas perguntas. Nossa aviação comercial está dentro dos padrões internacionais de segurança. O avião é ainda no Brasil o transporte de massa mais seguro de todos. As estatísticas comprovam. Dificilmente, também, existe uma causalidade direta entre os conflitos trabalhistas e o acidente de Fortaleza. O importante é que o desastre da Vasp traz para o conhecimento e debate da opinião pública a situação de nossa aviação comercial.

Com o aumento do petróleo e o esmagamento do salário do passageiro classe média, as empresas aéreas passam maus momentos. Para cobrir seus déficits a fórmula tem sido: utilização intensiva dos aparelhos, diminução dos vôos, aumento da jornada de trabalho e achalamento dos salários dos aerováriose aeronautas e queda na qualidade do atendimento do passageiro. Neste quadro, o DAC e a fiscalização do Ministério do Trabalho precisariam rever suas políticas. Têm que proteger melhor os passageiros, os aerovários e aeronautas.

Hoje, uma viagem de avião é uma série de pequenas infrações. O avião nunca saí no horário. O DAC multa o passageiro que chega atrasado, mas quem não saí no horário é o avião. Os passageiros esperam horas perdidas no aeroporto. Diante dos
atrasos, as simpáticas despachantes de vão tratam os passageiros como crianças antigas. Sorriem e não dão explicações. A filla para entrar no avião é a filla dos que sobraram, dos que não têm pistolação. Não adianta chegar cedo. Na sua frente vão passar (com bilhete do mesmo preço do seu) o tio do comandante, o banqueiro da empresa, a namorada do despachante, o amigo do deputado, o assistente do tecnocrata brasilense, o cantor do rádio, etc. Se o avião estiver lotado, não raro vai gente dentro da cabina. Nos aviões existe sempre algo a consertar: o banco que não desce, cclnzeiro que não abre, a poltrona mal fixada. Nos banheiros, é raro encontrar tudo que deveria estar lá: sabenete limpo, cobertura de assentos do santiário, etc. As refeições de bordo, com pouco mais, viram bandejão de restaurante universitário. Há pouco tempo, o DAC proibiu bebidas alcoólicas, mas não diminuí o preço da passagem correspondente à queda da qualidade do serviço. Se o passageiro faz ponte aérea, depois de exaustivo dia de trabalho em São Paulo ou em Brasília, não raramente volta para casa com a mesma tripulação que o levou. O passageiro já exausto, mas a tripulação tendo que aguentar firme.

Em outras palavras, o desastre da Vasp coloca também em questão a eficiência da regulamentação e fiscalização do DAC e do Ministério do Trabalho.

(Joaquim Falcão)

_10/06/1982_