Aquí no Recife, perguntou-se a Francisco Wefort, da direção nacional do PT, se o PT preferia ter no governo o PDS ou o PMDB. Wefort respondeu, durante o seminário de política e eleições realizado pela Fundação Joaquim Nabuco, fazendo uma distinção entre o adversário eleitoral, que pelo menos no caso de São Paulo era o PMDB por ser o mais forte, e o adversário político, que seria sempre o PDS. Argumentou também que a estratégia eleitoral do PT tem que levar em consideração, se quiser sobreviver, a vinculação total dos votos, invenção do regime. E terminou fazendo uma analogia. Comparou a pretensão de setores do PMDB em querer que o PT apóle os candidatos majoritários mais fortes do PMDB, e com isto se inviabilize eleitoralmente a uma psicopatologia. Ou seja, o PMDB se comporta como alguém que admira; gosta e ama uma pessoa (o PT), mas ao mesmo tempo quer que esta pessoa morra. No caso, política, mente, trata-se de um amor assassino.
Posição absolutamente distinta tomou o prof. Carlos Estevam Martins. Perguntado também, no mesmo seminário, sobre a estratégia eleitoral do PT, Carlos Estevam considerou a separação entre adversário eleitoral e adversário político tão impossível quanto a separação entre a moral e a ética. Mais ainda: considerou que esta estratégia traz orisco de transformar o PT num partido alternativo do governo contra as demais oposições. O ponto central de sua argumento
tação no entanto foi a crítica ao fato de o PT pretender ser não só o único partido representativo dos trabalhadores brasileiros, mas também o único partido de verdadeira oposição ao regime. Esta posição do PT acarretaria pelo menos duas consequências. A primeira acabaria por retirar dos demais partidos da oposição qualquer pretensão de legitimidade oposicionista. A segunda, na medida em que os trabalhadores só têm um partido legítimo e representativo, a médio e a longo prazo esta posição atacaria frontalmente o pluripartidarismo e desembocaria no partido único.
Foram estes, em resumo, os principais aspectos do debate sobre a atual estratégia eleitoral do PT. O resultado deste debate não é para agora. Será decidido pela própria práxis política do PT, e como diante dela posicionarão os eleitores, os demais partidos da oposição e o governo. Desde logo, no entanto, pode-se vislumbrar um desafio que o PT tem de enfrentar: como desenvolver uma práxis política suficientemente flexível capaz de poder visibilizá-lo eleitoralmente nas diferentes regiões do Brasil, sem que esta flexibilidade destrua sua coerência político-ideológica.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 27/05/1982_