A investigação do “escândalo da mandola” envolve pelo menos três aspectos: a investigação sobre o assassínio do procurador Pedro Jorge, a investigação sobre o desvio dos recursos através do Banco do Brasil e a investigação sobre o afastamento de Pedro Jorge do processo a que estava vinculado. A primeira investigação deverá encontrar os responsáveis pelo assassínio. A segunda deverá encontrar não apenas os que usaram ilicitamente os recursos, mas sobretudo os que criaram condições para tanto, como, por exemplo, elevando absurdamente o limite de aplicação do Banco do Brasil em Floresta. Finalmente, a terceira investigação deverá identificar os que pressionaram politicamente o procurador-geral para que Pedro Jorge fosse afastado. Para se posicionar sobre esta terceira investigação, a OAB de Pernambuco, sob o comando de Dorani Sampaio, fez realizar no Recife ato público.
A opinião pública e a OAB não aceitam a versão de que Pedro Jorge foi afastado por causa de reclamação, nunca apurada, feita contra ele por um dos implicados. A opinião pública e a OAB não aceitam explicações da Procuradoria Geral, segundo o orador da OAB, prof. Ollimpio Costa Jr: “Lamentáveis tentativas de explicação posterior, em desrespeitosas declarações prestadas à imprensa, quando ainda quente seu corpo trucidado”. A identificação das causas do afastamento impõe-se para que o Pais possa saber se pode ou não contar, daqui para o futuro, com seu Ministério Público. Pois que credibilidade terá uma instituição pública que não informa à opinião pública os motivos de suas decisões? Como o Ministério Público poderá ser o fiscal primeiro da
legalldade das leis e defensor dos interesses
da União se eventualmente se-submete a
pressões impulcáveis?
Esta exigência não é só da opinião pública. É dos próprios procuradores, federais e estaduais, também. Como poderá daqui pra frente um procurador exercer sua missão se a reclamação de qualquer um, sobretudo daquele a quem eventualmente tenha de processar, é capaz de derrubá-lo? O prof. Olimplo Costa Jr. colocou bem um dos termos do problema: “O Ministério Público é o órgão de defesa da sociedade, e não do Estado”. Infelizmente, assim não pensa o procurador-geral, que se afirma e reafirma homem do governo. Mas o problema é mais amplo do que esta tentativa de estatizar a profissão, o Direto e a Justiça. Mais amplo e mais grave.
Mesmo admitindo que a Procuradoria Geral seja órgão do governo, a opinião pública quer saber, quais os interesses de governo que levaram o próprio governo a afastar Pedro Jorge. Se houver motivos aceitáveis, a opinião pública será a primeira a reconhecer, e a imprensa a publicá-los. Não revelar as causas do afastamento e não identificar os que pressionaram politicamente a Procuradoria Geral só aumenta as suspeitas da opinião pública: o governo está sendo o bode expiatório. Estão usando seu nome em vão. Neste caso, o governo só pode ter um interesse: trazer tudo claramente à opinião pública.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_Recife, 22/04/1982_