O desenvolvimento urbano brasileiro está aprisionado por duas propostas. Por um lado, as propostas oficiais pretendem acelerar a implantação do modelo urbano que está aí — metros, crescimento vertical, víadutos, centros de convenções, etc. Trata-se de aceleração sempre tardia, pois deixa intocadas as causas do problema: o desemprego, as migrações rurais e a especulação imobiliária. Por outro lado, as demais propostas vinculam inexoravelmente a solução dos problemas à revisão do modelo econômico. Revisão hoje utópica, pois lhe faltam ainda condições de viabilidade política. São propostas concorrentes que no entanto se encontram em ponto comum; não evitam o agravamento cotidiano do caos urbano.
Tentando espaçar uma e outra, Jalme Lerner acaba de implantar, na periferia de Curitiba, comunidades rurais. Comunidades urbanas, portanto. Trata-se de comunidades onde o trabalhador tem uma área de 5.000 m² para plantar, para sobrevivência e comercialização. Na beira das cidades, estas comunidades ajudam a regular o fluxo da produção agrícola, criam empregos, absorvem parte da marginalidade urbana e, mais, dão aos trabalhadores acesso à saúde, educação e transporte, o que dificilmente teriam isolados no campo.
Jaime Lerner veio ao seminário de tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco expor e discutir esta sua experiência. Há 25 anos, de forma pioneira, Gilberto Freyre cunhava o conceito do rubano, solução que desde então advogava para impedir a “inchação” que antevira de nossas grandes ci
dades. A oportunidade foi então de discutir o conceito que virou prática.
A implementação social de qualquer teoria é inevitavelmente ato político. Jalme Lerner foi bastante claro ao enfatizar o conteúdo político da experiência. Enfatizou, por exemplo, que a experiência distancia-se de uma política econômica que eleja a dívida externa e a inflação como prioridades nacionais. Enfatizou também que distancia-se da centralização política que transforma federação em reino, e opta pela revalorização do poder local. O importante é que Jalme Lerner tem agora debaixo do braço não um projeto no papel, mas experiência social concreta a ser discutida e julgada pelos brasileiros.
O mínimo que se poderia esperar da abertura era permitir que os paranaenses avaliassem esta experiência. O que parece longe de acontecer. A escolha autocrática do candidato a governador do PDS/Paraná barrou as pretensões de Lerner. Se um dos parâmetros da abertura é evitar o confronto, a decisão do PDS pouco contribuí nesta direção. O confronto não resultará do voto do eleitor. Será decidido antes. Deixar ao eleitor apenas a opção de escolher entre candidatos fléis ao regime e os que são contra, não evita o confronto. Evita é apresentar candidatos que se caracterizem por projetos inovadores para a crise brasileira. Seja para a derrota, seja para a vitória.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 15/04/1982_