Bons candidatos, boas alianças, boas de-
núncias, boas obras públicas, tudo ajuda.

Mas o que vai decidir mesmo as eleições é a
televisão. Tem sido assim em todo o mundo.

Desde o debate Kennedy e Nixon, vinte anos
atrás, campanha eleitoral é televisão. Re-
centemente, na França, o estilo imperial de

Giscard na televisão acabou ajudando Mitterrand. O Brasil não vai escapar à regra.

Para se ter idéia da influência da TV por
aquí, basta lembrar que, na pesquisa da

“Gazeta Mercantil”, Roberto Marinho, da

“Globo”, foi eleito um dos cinco homens
mais importantes do Pals.

Na verdade, quem vai decidir mesmo é o acesso ou não-acesso dos candidatos ao vídeo, Definir os limites deste acesso é atualmente o principal problema do governo. Problema que não comporta mais soluções simplistas, tipo Lei Falcão, que próbila o acesso ao governo e à oposição. Hoje, o governo necessita que a campanha chegue à televisão. Se não chegar, o eleitor votará influenciado apenas por sua experiência cotidiana. E esta experiência é controlada pela carestia, pela inflação, pela corrupção, pela violência urbana, pelo desemprego, etc. e tal. Daí a necessidade de o governo retirar de suas costas a culpa de todos estes males. E retirar, se possível, via televisão em cores. Não é por menos que o presidente João Figueiredo, em seus discursos à Nação, bate com insistência na mesma teclada: o culpado da situação econômica atual é a confuntura internacional.

Fazer uma lei que permita o acesso à televisão basicamente aos candidatos do go-
gislativo. Mas dificilmente atingirá o objetivo: influenciar o eleitor. Por dois motivos, pelo menos. Primeiro, porque eleições democráticas no mundo de hoje passam necessariamente por um acesso sem censura aos meios de comunicação.

Sem um mínimo de debate nos meios de comunicação, teremos é eleições totalitárias, que dificilmente ajudará o regime a recuperar a legitimidade de que necessita. Segundo, porque a decisão do eleitor é comparativa. Compara entre um partido e outro, entre um candidato e outro, e depois escolhe. A força eleitoral da televisão a favor do governo ou da oposição depende menos do fato de ser instrumento do discurso oficial do que de sua capacidade de permitir aos eleitores comparações que expliquem, e eventualmente justificuem; suas angustias cotidianas. Quem quiser utilizar a televisão como força eleitoral, PDS ou oposições, terá que correr este risco democrático: o de perder nas comparações.

O poder da televisão não aumenta pelo fato de ter sido Montoro ou Reinaldo quem ganhou o debate. Aumenta pelo fato de ter vialobilizado um debate democrático. Como a Presidência, o Congresso, a Igreja, o Exército, o Ministério do Planejamento, a televisão é hoje no Brasil uma das principais instituições de nossa República. E como todas pode ou não ser democrática.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 08/04/1982_