Enganam-se os que acreditam que já temos partidos políticos. Não temos ainda não. Quando muito temos alianças eleitorais, provavelmente efêmeras, que se fazem e desfazem debaixo de siglas. Siglas que dizem pouco mais do que: governo ou oposição. Vejam por exemplo a escolha dos candidatos. a governador. Quem os escolhe? Com raras exceções, uma meia dúzia de líderes repartem entre si os cargos disponíveis. O exemplo do PDS do Ceará está a parar quem quiser aprender. Dividiram tudo. Não sobrou nada para quem não participou do almoco. Nem mesmo para o deputado Flávio Marcello.

Os políticos, com devidas exceções, do governo e das oposições, trocam de siglas constantemente. Vejam o Rio de Janeiro. Qual o eleitor medianamente informado que é capaz de dizer quem está em que partido? Quem é ou quem foi governo? Quem é ou quem foi oposição? Uma visão simplista acreditaria que os culpados disto tudo são os políticos, que não têm consistência ou coerência ideológica, que incorporam e se deslincorparam com facilidade. Justiça seja, no entanto, feita. Não são culpados, os políticos. Este valvém, qual ciranda pernambucana, é um valvém de sobrevivência. O culpado são os casuísmos, que desfiguram a finalidade dos partidos e não deixam outra opção aos políticos. Os casuísmos desvirtuaram os motivos pelos quais, numa democracia, o cidadão adere e votanãs partidos, as razões pelas quais se constituem ou se acabam partidos políticos.

Em novembro, o partido, enquanto programa, máquina partidária e representação permanente de interesses de grupo e classes sociais, vai contar muito pouco. As eleições vão ser decididas pelo prestígio In
dividual do líder/candidato, e sobretudo pelo impacto da sigla. Por isto mesmo os ca-suísmos voltam-se agora, como derradeira medida, contra as siglas. Vão proibir o voto na legenda.

Por trás deste processo paradoxal de reconstruir uma democracia, deformando-a logo no início, existem dois aspectos importantes, que tudo explicam.

Primeiro, não importa a sigla, se do governo ou da oposição, não importa o líder, se de antes de 64 ou de depois; não importa o sistema partidário, se bipartidarismo ou pluripartidarismo — o fato é um só: o sistema partidário atual não tem ainda poder real neste regime. O político ainda não influencia o econômico. Nem o PDS nem as oposições têm a menor chance de interferir na política econômica do governo. A política econômica oficial trata os partidos com uma comiseração olímpica. Recorde-se o episódio da Previdência Social.

Segundo, todos os partidos sofrem de oscilação congênita, criados que foram por uma abertura que oscila em ser um processo de redemocratização para valer ou apenas uma fórmula política, no dizer de Faro, para manter no poder os que nele estão…

Pode ser que as eleições mudem tudo. O voto popular poderia dar força real aos partidos políticos em geral. A todo o sistema partidário. Tanto ao PDS, quanto as oposições. Se assim for, deixaremos de ter partidos eleitorais, e começaremos a ter partidos políticos.

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_Recife, 28/03/1982_