A cada dia, os casulmos perdem sua capacidade de mudar o quadro eleitoral. Como toda arma, parte de seu poder de fogo reside na surpresa. Ora, surpresa hoje seria o governo parar com os seus casulmos. O que é difícil. O casuísmo é como uma vocação compulsiva, na tentativa de se livrar de um futuro eleitoral adverso. E já que é inevitável, os candidatos e os eleitores se adaptaram a ele. Quer dizer, ninguém mais se define, a não ser no indispensável. Em Pernambuco, por exemplo, os fatos fundamentais são os mesmos, independente da incorporação. Do lado do governo, o PDS tem que chegar unido a novembro de 82. Do lado do PMDB, Marcos Freire tem que unir as oposições em torno de sua candidatura. Ninguém é bobo. Todos, governo e oposição, esperam passar o surto casuístico. Por isto, as chapas do PDS e do PMDB permanecerão em aberto ainda por muito tempo.
No PMDB estão vagos os cargos de vice-governador e senador. Disponíveis para negociação interna ou com os demais partidos, se permitido. Ao contrário do que se noticiou, Cld Sampaio não irá para o PDT. Permanece no PMDB, e com certeza candidatável. No PDS, os cargos de vice-governador e senador estão vagos também. Para vice, cogita-se hoje de Antônio Fartas, ex-prefeito do Recife a ser apolado pelo grupo Moura Cavalcanti. Indicação que terá de obter o “nada consta” do grupo Nilo Coelho. Já para o Senado, a decisão é mais difícil. O candidato natural seria Marco Maclell, sobretudo depois das pesquisas revelarem a sua popularidade de seu governo. Mas, como
seguro morreu de velho, o governador resiste às pressões e prefere ir para a Câmara Federal. Os demais nomes, como o deputado Ricardo Flúza, não têm o mesmo calibre eleitoral.
Dos casulismos ainda em estoque — “distritão”, dobradiça, aumento do número de deputados etc. — qualquer que seja o escolhido, dificilmente modificará a situação atual. A razão é simples. A legislação casulística dá apenas forma ao quadro eleitoral. Por mais atilada que seja, não muda muito a substância da realidade política. E em volta desta realidade, o PMDB e o PDS há muito já se definiram. A dupla Maciel-Krause, por exemplo, invadiu, com seus governos, tradicionais redutos eleitorais oposicionistas. A ponto de hoje termos no Recife o presidente Figueiredo distribuindo títulos de posse aos que até há pouco eram tidos como invasores e subversivos. Já o PMDB de Jarbas Vasconcelos teve a ousadia de se estruturar em todo o interior do Estado. Hoje, o PMDB tem provavelmente mais diretórios que o próprio PDS. A compulsão pelo casulismo é importante, não restam dúvidas. Mas provavelmente é insuficiente para alterar radicalmente a realidade política. Em Pernambuco, o que importa mesmo é a capacidade de o governo invadir os redutos da oposição e a oposição os do governo. O resto é cuase supérfluo.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 04/03/1982_