Diante da incorporação, o laboratório de casulismo do Planalto está aceso. Mais uma vez, a definição do casulismo a adotar será um parto extremamente difícil. O casuísmo sofre de contradição congênita. Trata-se de legislação nacionalmente uniforme, para assegurar a vitória do governo em contextos estaduais absolutamente distintos. Pernambuco não é Bahia. Nem Mato Grosso é São Paulo. O que é bom pra lá, pode não ser pra cá. As eventuais consequências em Pernambuco dos casulismo em moda nesta semana — o “distritão” e a dobradiça — são ainda nebulosas. Algumas indicações podem, no entanto, ser avançadas.

O “distritão”, com certeza, trará dificuldades ao PMDB em Pernambuco. Favorecerá sobretudo os pequenos partidos, e um pouco o PDS. Mas ninguém pode assegurar se aumentará a bancada do governo em Brasília. A dobradiça é a repartição da vinculação dos votos em duas listas. Na primeira, vincula-se governador, prefeito e senador. Na segunda, vincula-se vereador, deputado estadual e federal. Se assim for, a dobradiça poderá de antemão garantir a vitória de Marcos Freire. O PDS só terá cacife para enfrentá-lo se Maclei for candidato ou ao Senado ou à reeleição como governador. A emenda da reeleição poderia ter o apolo do PDS local por motivo simples.

O atual candidato do PDS ao governo é Roberto Magalhães, justamente o vice-governador de Marco Maciel. Que evidentemente não colocará obstáculo caso Maciel decida se candidatar à reeleição. O que parece não ser o caso. Maciel publicamente reitera nada pretender neste campo. Se pretender, seu risco será grande. Perder para Marcos Freire fratura seu caminho para um Ministério ou para a vice-presidência. E abre espaço para que o PDS local caí nas mãos de Gustavo Krause e Moura Cavalcanti.

Antes do governo decidir qual o casuísmo a adotar, não custa lembrar a história política de Pernambuco. Ela nos ensigna por exemplo que casuísmo pode ser também bumerangue. Em 1947, no máximo dos casuísmos, o PCB na ilegalidade vestiu a roupa disponível do PSP, sem precisar de incorporação nem nada, e fez na Câmara dos vereadores do Recife quase a maioria; 12 vereadores num total de 25. Em outras palavras, dose excessiva de casuísmo pode provocar desastrados efeitos colaterais.

(Joaquim Falcão)

_18/02/1982_