Não é só na política social que divergem Igreja e governo. Divergem também na mapeira como cada um escolhe seus respectivos dirigentes. Enquanto o governo anda sem rumo, afogado neste ciporal de casulismos, manipulações e conflitos internos, a Igreja escolhe seus dirigentes discreta e firmemente. Recentemente, duas importantes decisões foram tomadas. D. Luiz Fernandes foi nomeado bispo de Campina Grande, e d. Marcelo Carvalheira, bispo da diocese de Guarabira, ambos na Paralba. Nesta tarefa de escolha de dirigentes, o exemplo está a para quem quiser aproveitar. Em relação ao Nordeste, as nomeações dos bispos vêm respeitando pelo menos critérios fundamentais.
Primeiro, tem-se procurado sempre aumentar o consenso em torno do projeto temporal de João Paulo 2.º. Projeto que passa pela opção pelos pobres, fundamenta-se nos princípios de Puebla e se operacionaliza nas diretrizes da CNBB. A cada dia à atuação da Igreja é mais homogeneamente progressista. Veja, por exemplo, os bispos de hoje no Nordeste. Na Paraliba temos d. Marcelo em Guarabira, d. Lulz Fernandes em Campina Grande, d. José Maria Pires (d. Pelé, o bispo dos posselros) em João Pessoa. Na Bahia, temos d. José Rodrigues, en Juazeiro. No Ceará, d. Antônio Fragoso, em Crateus. Para não falar de Pernambuco, com d. Hélide de d. Lamartine rio Recife e Ollinda, e d. Francisco Austregésilo, em Afogados da Inguazelra.
Segundo as reivindicações, procuram
sempre corresponder às expectativas dos fléis. Nestes últimos anos, a Igreja no Nordeste mobilizou e conscientizou um número grande de fléis, que se responsabiliza cada dia mais pela atuação da própria Igreja. As indicações dos blspos procuram atender às expectativas dos fléis atuantes, e da população em geral. Com blspos que se caracterizam não só pela sensibilidade aos problemas sociais — à questão da terra, à cultura popular etc.— como pela adesão à luta não-violenta. A não-violência, sendo uma diretriz que partiu de d. Hélder, hoje é aceita por toda a Igreja.
Finalmente, não se têm confundido os eventuais interesses dos dirigentes com a necessidade vital de renovação de quadros. A sobrevivência da Igreja enquanto instituição depende diretamente de sua possibilidade de adequar a mensagem cristã aos novos problemas dos novos tempos. Esta adequação sempre dinâmica exige novos dirigentes, novos quadros, novas mentalidades. Quer dizer, não se prorrogam mandatos.
Bem que nossa classe política, deste beco sem saída, deste túnel sem luz e deste poço sem fundo, poderla dar uma olhada neste estilo da Igreja. Não se revigora uma institução sem projeto a Implantar, consenso popular e renovação dos dirigentes.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 24/01/1982_