Mas, afinal de contas, quem decide quais são as prioridades nacionals? O governo através de seus órgãos especializados, como a Sudene, por exemplo?, Ou os empresários internacionais através de seus projetos pessoais, como Daniel Ludwig e seu projeto Jari? No mesmo momento em que o governo ameaça cortar o orcamento Flnor/Sudene em trinta bilhões de cruzelros, encontra melos de investir no Jari cento e oitenta milhões de dólares (cerca de 28 bilhões de cruzelros). Se houvesse recursos para todos, tudo bem. Mas não há. Todo dia o governo tenta reduzir custos. Escolher melhor seus investimentos. Daí porque, pelo menos indiretamente, a Sudene concorre com o Jari. Ambos disputam o pouco capital que o governo tem para investir.

Se optar pelo Jari, o governo não toma decisão econômica. Ninguém pode afirmar, nem o mais esclarecido tecnocrata, que investir no Jari é melhor que na Sudene. Ambos são investimentos de longa maturação. Sujeitos a imprevisíveis chuvas e trovoadas na conjuntura econômica nacional e internacional. Acresce que hoje o Jari já nem tem como pagar suas dívidas. A decisão não é econômica. E política. E se política, é jogo de forças, ganha o mais forte. No caso, os investidores do Jari estão mais fortes do que os eleitores da Sudene.

Por um lado, Antônie Carlos, Marco Maciel, Marcos Freire, Walfrido Salmito, governo e oposição, políticos, empresários e técnicos todos sabem que o corte no Finor: “Cerca de novecentos projetos, muitos
em andamento, diminuí a oferta de emprego, descontenta os eleitores e atrasas a reglao. Por outro o sr. Ludwig ameaça não pagar a promissória que vence no fim do mês. Se não pagar, paga seu avalista, o BNDE. Sendo que os investidores internacionais preferem que o sr. Ludwig não passe por insolvente. E que o governo assuma a dívida e o projeto. Ao financiar o Jarl e cortar o orçamento da Sudene, a política oficial está privilegiando os investidores internacionais e não atendendo aos governadores, empresários e trabalhadores do Nordeste. Aqueles têm como poder político a dívida externa. Estes, o voto.

Na verdade há outro aspecto a considerar. É que, há muito, o Jari se transformou em problema de Segurança Nacional. Uma questão de terras. A segurança da própria Amazônia. Se assim é, que o diga francamente o governo. Terá o apoio da opinião pública. Nordeste, Inclusive. Não somente para encontrar outras formas de nacionalizar o Jari. Mas, sobretudo, para reveruma política econômica que permite que o insucesso pessoal de um empresário internacional acabe por desabar no bolso de cada contribuição. Não tem capitalismo nem abertura democrática que aguente esta política econômica.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 14/01/1982_