Na bolsa de valores da política as ações dos partidos fecharam em baixa. Quando reabrir, estarão em alta as ações políticas das organizações da sociedade civil: a Igreja, a OAB, os sindicatos, os diretórios estudantis etc. Antes do “pacote” eleitoral, a tendência do mercado político era acreditar nas eleições. O próprio governo convocava todos a fazerem política nos partidos. É recente ainda a imagem do Planalto convocando os empresários a entrarem nos partidos. Do Ministério da Educação alertando os universitários de que política se faz nos partidos, e não nos diretórios. Do Ministério da Justiça contrariado porque a Igreja estaria fazendo política fora dos trâmites oficiais. Para que o mercado comprasse ações dos partidos, o regime acenava com eleições para valer. Fillar-se aos partidos seria um bom investimento. Os partidos teriam força política. Influenciaram os rumos da Nação. Agora tudo mudou. Nem mesmo comprar ações do PDS é bom investimento. O PDS continua partido do poder, sem poder. Quem manda mesmo é o sistema, o Planalto e os tecnocratas. Tudo mudou. O empresário para lutar contra a estatização, a classe média contra o achatamento do salário, o trabalhador contra o desemprego, o universitário contra a má qualidade do ensino, a Igreja contra a Injustiça social. e os advogados contra o autoritarismo, todos vão ter que refluir às suas instituições representativas. Ao forçar a baixa das ações dos partidos, o regime renova o problema que tinha antes da abertura: como controlar a crescente oposição difusa, cada dia mais espalhada pela sociedade?
Vejam, por exemplo, o que já aconteceu com os advogados. A Ordem dos Advogados
do Brasil planejara discutir esta semana em Fortaleza um importante problema da classe: a má qualidade do ensino jurídico, suas repercussões no mercado de trabalho e as reformas necessárias no Pals redemocratizado. Ou seja, sem abandonar a luta pela Assembléia Nacional Constituinte e pela volta ao Estado de Direito, a Ordem começa a se aprofundar nos problemas específicos da classe. No entanto, José Castro Bigi, presidente da Ordem dos Advogados de São Paulo, logo na sessão de abertura da reunião, foi claro ao expressar o ânimo geral dos advogados. O “pacote” eleitoral fere tanto os valores éticos e jurídicos dos advogados, que tudo mais fica em suspenso. A principal luta dos advogados é contra a manipulação casuística da legislação eleitoral. Não tem Estado de Direito que resista à utilização autoritária do Direito. De imediato, sob o comando de Bernardo Cabral, todos os presidentes dos conselhos seccionais da OAB repudiaram o novo surto autoritário.
Daqui para frente, se o governo insistir em aprovar sem negociação o “pacote”, com certeza ganhará no Congressão. Ganhará as eleições, Mas com certeza também politizará a ação dos organismos da sociedade civil. A oposição política terá de ser feita tanto nos partidos, ainda que enfraquecidos, como fora deles, por toda a sociedade. Ora, era justamente isto o que, há cerca de três anos atrás, o próprio regime tentava evitar. E agora, paradoxalmente, estimula.
(Joaquim Falcão)
_Belo Horizonte, 03/12/1981_