O PDS tem dois problemas. Um todo mundo sabe: corre o risco de hoje não ser o partido majoritário no Congresso e, em 82, na Nação. Outro é menos evidente: suas cúpulas estaduais e federais correm o risco de perder o poder internamente. Dal, brigas intestinas. Ackel contra Sarnel. Kertz contra Antônio Carlos. Natel contra Maluf etc.
O PDS foi partido no poder, mas de pouco poder. Foi celeiro de civis confiáveis ao regime militar. Seus líderes e governadores raramente foram escolhas autónomas. Foram antes indicações do regime, acima do partido. No começo da abertura, tentou-se modernizar estas indicações. Em vez de nomes, o regime escolhia leis. Foi a fase da manipulação casuística da legislação partidária. Os governadores acorriam aos casuímos, porque suas lideranças, no partido e nos Estados, e a escolha de sucessores dependiam da lei casuística do dia. Para o regime, o “ponto do doce” era forjar leis que dificultassem a ascensão das oposições, e ao mesmo tempo garantissem o poder interno do PDS para os grupos mais confiáveis. Hoje, fica claro que os casuímos eram tanto contra as oposições quanto a favor da reprodução de determinadas cúpulas do PDS. Em outras palavras, eram contra os possíveis dissidentes internos. A mágica era, em nome do combate à Oposição e da sobrevivência majoritária, manter conformados dentro do partido os que não participavam das cúpulas federal e estudais. O que em parte se conseguia com distribuição de cargos e benesses vía Executivo. Agora, a mágica acabou.
Com as eleições de 82, e a ascensão das oposições, vale mais um deputado dissidente com voto no PDS do que o amigo conflável, candidato “in pectore” do governador. A abertura bate às portas do PDS, Obriga-o a trocar as bases de sua legitimidade, interna e externa. Qual seria a reação da torcida, se seu time de futebol só ganhasse o jogo por
que o técnico é amigo do juiz que troca as regras de acordo com a necessidade do amigo? O exemplo é simples, mas esclarece o drama de hoje do PDS. Nem o juiz quer continuar trocando as regras. Nem o outro time permite mais. Nem todos os jogadores estão contentes com o técnico. E há muito, a torcida quer jogar pra valer. Sem mímicas.
O que o Pals precisa é de partidos, do governo e da Oposição, que não escamo-telem suas divergências internas. Que assimam seus conflitos. Mas que sobretudo os resolvam dentro das normas da concorrência democrática. Pode até ser que, assim, o partido momentaneamente perca força. Mas ao trocar o sucesso autoritário, efêmero e autofágico, pela verdade democrática, estável e crescente, estará lançadas as bases para a estabilidade política do Pals. Não tem democracia que aguente um partido oficial que resolva seus problemas ameaçando a Nação com volta ao passado e com legislação casuística. Levando à destruição a consolidação das instituições e o Estado de Direito.
Mais importante do que saber quem vai ganhar as brigas intestinas do PDS é saber como estas brigas vão ser resolvidas. Se democratizando-se internamente, e escolhendo candidatos competentes para 82 (pouco adianta, hoje, o candidato confiável a setores do regime, mas inconfiável ao eleitor), ou continuando a escolher seus líderes e candidatos pela amalzade temporária com o poder. E preciso que o PDS funde sua legitimidade na racionalidade democrática do processo eleitoral. A abertura não vai implodir com o PDS. Vai apenas infligir-lhe as dores do crescimento democrático.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 15/11/1981_