Qual o papel dos cientistas sociais na abertura política? A esta, e a outras perguntas, mais de 300 sociólogos, antropólogos, juristas e cientistas políticos se debruçaram na 5.ª Reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação de Pesquisa em Ciências Sociais, realizada em Friburgo-RJ. Para a boa resposta, duas considerações foram necessárias.

Primeiro: no dizer do prof. Vanderlel Guliherme, a abertura é a saída “negociada” para o autoritarismo. A aberturan em é o projeto solitário do gabinete do príncipe (pode até ter sido mas não é mais), nem o resultado vitorioso da luta das oposições. E os dois. E um processo de negociação. Onde a cada dia novos atores se sentam à mesa e novos cursos se impõem. Como tal é questão aberta ao futuro. Donde participar deste processo é influenciar e forjar o futuro da Nação.

Segundo: ao participar, cumpre ao cientista social escapar tanto da visão ingênua, quanto da visão clínica da abertura. A visão ingênua se nutre do mito do messianismo. Ou seja, já que a História é a favor das classes populares, a abertura virá mais cedo ou mais tarde. Por bem ou por mal. A visão clínica, por sua vez, se nutre do mito da catástrofe. Ou seja, já que o Estado tudo pode e reproduz, a abertura desemborcará necessariamente na “fechadura”. Ambas são visões de desesperanças, e dispensam o esforço dos cidadãos. Ora, a realidade social e política do Brasil de hoje é bem mais complexa, e com certeza bem menos monótona. Basta constatarmos o ineditismo da saída negociada que a abertura propõe para o autoritarismo. Nem estamos às vésperas de uma nova independência nacional como em 1822, nem às vésperas da queda do Império como em 1889, muito menos às vesperas da redemocratização de 46 com a derrubada do Estado Novo. A participação dos cientistas sociais neste processo de descompressão exige bem mais do que as efêmeras tranquilidade e certeza que a interpretação sim
plificada e esquemática de nosso passado pode oferecer.

Tome-se por exemplo a questão da Assembléia Nacional Constituinte. Dificilmente a abertura deixará de passar pela Constituinte. Dificilmente também pode-se afirmar que governo ou oposições têm suficiente força política, e respaldo social, para unilateralmente imporem ao Pals um novo estatuto jurídico. Nem estamos em vésperas de uma nova Constituição outorgada, como em 37 ou em 69, nem em vésperas de uma Assembléia Constituinte, expressão da ascensão de um novo pacto de poder e da queda do regime. A abertura, como um ineditismo na História e como uma questão aberta ao futuro, exige de todos participação responsável e inovadora.

Neste momento de desafio, o norte do clientista social deve ser mais que nunca o compromisso com a verdade. Com o redescobrir, o desvendar, o restaurar, o revelar a verdade social e política brasileira, que esta sociedade politicamente autoritária e socialmente hierárquica telma por esconder. Não há pois que menosprezar o conteúdo político que, nesta hora, assume nossa verdade social. Aliás, seria o impacto político da verdade social o bom caminho para nos livrarmos da constatação explicitada pelo prof. Fábio Vanderlei Reis; a de que para importantes segmentos populares a abertura política ainda não é assunto de preocupação, ou seja, a síndrome do desinteresse é a de que, para importantes segmentos do regime, a abertura é o caminho da subversão, ou seja a síndrome da subversão onpresente. Como bem lembrou o prof. Vanderlei Gullherme, ao participar da abertura política o cientista social deve ter em conta que, mais do que nunca, buscar cientificamente a verdade social e política brasileira é buscar a de-mocracia.

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_Recife, 29/10/1981_