Os plantadores de cana, nome de hoje dos senhores de engenho de ontem, entraram em greve (suspensa quinta-feira), em protesto contra o governo. Queriam aumento de 62 por cento no preço da cana, Brasília ofereceu 34 por cento e acabou se chegando a 42 por cento. E pouco provável que esta decisão seja modificada, Primeiro: Delfim está na Europa. Segundo: o preço é de validade nacional e as demais regiões estão quietas. Terceiro: não há unanimidade entre os plantadores de Pernambuco. O importante desta greve nem é o preço, nem o protesto. O importante é a constatação de uma elite pernambucana em crise. Crise tanto política, quanto econômica. Os plantadores e usinelros reclamam que nem sequer foram ouvidos por Brasília. A decisão teria sido burocrática e autocrática. Não se trata, no entanto, de falta de cortesia. Trata-se pragmaticamente da constatação da pouca importância que a atual estrutura da produção de cana tem para o capitallismo que está aí. Não foi desatenção ou ingratidão. Foi a evidência de que a baixa produtividade da produção açucareira pernambucana, a mais baixa do Pais, a estrutura fundiária conservadora e os métodos de gerência e administração ultrapassados transformaram os plantadores de cana em empresários, nacionalmente, economicamente pouco importantes e politicamente não representativos. Para com eles, o atual capitallismo é implacável. Ou adaptam-se às novas regras do jogo, ou sucumbem. Ou passam a ser economicamente competitivos, ou não contem com o governo.
Na verdade esta greve é muito mais uma greve contra o futuro do que contra o presen-
te. É uma greve nostálgica, a favor de um passado que dificilmente poderá voltar. Nem o quer o futuro de um capitalismo internacionalizado como pretende o atual regime. Nem o quererá o futuro de uma economia de bases mais socializadas, como parece ser a tendência universal, sobretudo européia.
Alle-se ao desprestigio econômico, o insucesso político. Dols meses atrás, plantadores e usineiros elegeram Marco Maciel seu representante político para obter de Brasília o aumento de 64 por cento que pretendiam. Não obteve. Em fase de re-democratização e de eleições, a articulação e reivindicação de gabinete conta bem menos. O que conta é a reivindicação aberta, socialmente representativa, e eleitoralmente significativa. Conta é a base eleitoral, partido unido, povo na rua e voto na urna. Conta sobretudo um projeto de sociedade pernambucana aberto para o futuro.
O que csta greve revela de mais importante é justamente a crise desta elite pernambucana, e de seu projeto econômico e político para Pernambuco e para o Brasil. Revela mais. Revela a necessidade de um novo projeto que não separe Pernambuco da Federação. Que torne sua economia poderosa e competitiva. Nacional e internacionalmente. Sobretudo que torne as relvindicações políticas relvindicações de todo o Estado, e não somente de uma parcela de sua sociedade.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 25/10/1981_