Até há pouco, um grupo cogitava da candidatura Antônio Ermírio de Morais para o Senado pelas oposições em Pernambuco. Não somente porque o seu pai foi senador com apoio popular, mas também por reconhecer em Antônio Ermírio emergente liderança civil cada dia mais próxima da postura do estadista nacional. Suas últimas declarações contra empresário na política desfizeram qualquer ilusão. Declarações que se opõem às idéias defendidas por Severo Gomes em conferência no Instituto Pedroso Horta de Estudos Sociais, aqui no Recife, posteriormente sintetizadas na “Folha”. A questão foi assim outra vez trazida ao debate público. Devem os empresários participar ou não da política?
Para ser bem respondida, pergunta tão vasta tem que se desdobrar em outras mais específicas. Por exemplo: fazer política hoje no Brasil é sobretudo influenciar no destino dos recursos financeiros e econômicos do Estado? E influenciar na política de defiação? E influenciar na determinação das aliquotas da Previdência? E influenciar onde o BNH vai aplicar nossa poupança? E influenciar nos subsídios? E influenciar no tabelamento dos juros? E influenciar onde a ponte, o conjunto habitacional, o projeto de irrigação, vão ser construídos? Nada mais precioso e mais poderoso, e portanto nada mais político, do que a possibilidade de influenciar nestas decisões. Não é por menos que a Revolução de 64, desconfiando da capacidade política dos senadores e deputados, os manteve até agora sem instrumentos legais diretos que lhes possibilitem influenciar estas decisões. E querer cobrir o
sol com penelra acreditar que os empresários não influenciam neste processo, e não fazem política. Será que quando Luis Eulallo Vidigal, ou Mário Garnero, ou Papa Jr. vão a Brasília para suas entrevistas, contatos e relivindicações não estão fazendo política? Será que quando os usinelros nordestinos reclamam juros subslídiados para a região não estão fazendo política, não estão fazendo a única política que realmente importa neste País? Será que o País não vê? Provavelmente, vê. A pergunta então é outra: será que esta política é a política adequada para um regime redemocratizado?
Uma segunda pergunta a ser respondida é a seguinte: das 1.700.000 empresas cadastradas no PIS-Pasep 60% não têm empregados e 20% têm de 1 a 5 empregados, ou seja, 80% das empresas brasileiras são de porte micro ou pequeno; será que estes empresários podem, como os grandes empresários, influenciar na alocação dos recursos públicos? No regime atual de concentração de decisões a nível federal, será que estes empresários estão bem defendidos? Dificilmente, com raras exceções, se vê um pequeno empresário recebido sozinho pelo ministro do Estado. Quando lá vão, vão em grupo. Vão esporadicamente. Portanto, uma outra pergunta seria a seguinte: como os pequenos e médios empresários podem influenciar na alocação dos recursos políticos?
(Joaquim Falcão)
_Recife, 11/10/1981_