“A política de conciliação é a grande política do governo.” A frase ainda não é de Aurellano Chaves. Poderá vir a ser. Por enquanto permanece do pernambucano Marquês de Olinda, regente e ministro do Império. A frase é antiga, mas a atualidade é grande. Foi relembrada pelo prof. Pinto Ferreira, líder intelectual de sua geração, ao receber homenagem da Universidade Federal de Pernambuco.

Politica de conciliação é por sinal política de mineiro também. Dificilmente Aurellano Chaves terá tarefa maior do que forjar a conciliação nacional. Allás, sem o pretender, já começou: concilliando militares e civis, desfazendo as suspeitas dos militares quanto a civis na Presidência. Mas a conciliação maior está por vir. Não é a conciliação política. O eventual acordo entre partidos independentes e a trégua entre o regime e a sociedade civil progridem. O que não progride é a conciliação econômica.

Lembrou Pinto Ferreira que democracia política não sobrevive sem democracia econômica. Lembrou mais. Lembrou que a defesa contra os radicalismos repousa no revigoramento do conteúdo social e econômico da democracia. Ora, a política econômica do governo ainda não estendeu a mão em direção ao povo, ou ao projeto de abertura política. E o próprio governo e o censo de 1980 que provam o que estamos dizendo.

O Ministério do Trabalho confirma que, em 1960, 60% da população mais pobre tinham
em mãos 23,41% da renda nacional. Hoje, detêm apenas 18,4% da renda do Pals.

No campo, a concentração é maior. O presidente do IBGE, Jessé Montelo, confirmou na Escola Superior de Guerra: os 50% mais pobres que antes detinham 22,4% da renda rural, detém agora apenas 14,9%. Enquanto isto, os 5% mais ricos, de 23,7% subiram para 44,2%. Sendo que os 1% muito, muito ricos aumentaram sua participação em 17%. Ou seja, passaram de 10% para 29,3%. Com tal concentração de renda não tem conciliação que progrida, nem abertura que sobreviva.

Bem lembrou o prof. Pinto Ferreira, que o País necessita de menos discursos sobre as dificuldades financeiras do governo, e de mais prática de democracia econômica nos lares dos trabalhadores.

O que estes dados revelam é que os responsáveis pela política econômica do regime não cumpriram com sua parte na tarefa de vlabillizar a redemocratização do Pais. Os discursos das autoridades sempre tentam mostrar que política econômica é tarefa complexa. Pode até ser. Mas os resultados são simples. E no caso, evidentes: a concentração de renda é a inimiga recôndita da conciliação nacional. E da abertura também.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 27/09/1981_