A diferença entre geada e seca é que a primeira age de uma só vez, na calada da madrugada. A seca não. Age devagarzinho, por anos e no sol a pino. A seca no Sertão contínua. E se agrava. Na Sudene, os governadores estão preocupados. O deputado Sérglo Longman, PMDB-PE, alerta governo e sociedade: ou se tomam providências agora ou teremos grave conflito social. Na verdade, para que o governo bem combata a seca, tem antes de se livrar de uma tentação econômica e de uma desconfiança política. Explico melhor.

A tentação faz com que a política econômica idolatre investimentos de retorno financeiro imediato. O que nem sempre atende às necessidades sociais e ecológicas do Sertão, Vejam o exemplo da fábrica de alumínio Asa, cedida pela Calxa Econômica à Alcoa. A Asa-recolhe mais ICM para os cofres do Estado do que todo o Sertão de Pernambuco junto. Em compensação, em três meses despediu 20% dos funcionários. Aumentou o desemprego, Subiu os preços mesmo com a produção baixando. Alimentou a inflação. Jogou borra de alumínio na maré. Matou pelxes e concentrou nas costas dos pescadores os custos dos equipamentos antipoluidores que não instalam. Esta tentação não pensa o Sertão como local de investimentos produtivos. Pensa o Sertão como pedinte da caridade brasileira. Na comparação dos retornos financeiros dos investimentos, o Sertão perde sempre. Ainda bem que a Asa tem ICM, e o Sertão tem voto,

Já a desconfiança política confunde luta pela sobrevivência e medo da fome com ação de grupos radicals. Fome e desespero
não são caso de polícia ou questão de segurança nacional. Podem até vir a ser. Antes são problemas econômicos e sociais. Negar a realidade não resolve nada. Agrava. Esta desconfiança é injusta para com o nordestino. Ignora sua tenacidade e Independência. Hipertrofia a ação dos radicals. E sua capacidade de obter respaldo popular.

Pergunte a qualquer usinelro da Zona da Mata Norte qual a quebra da safra prevista. A partir de dezembro faltará cana. A seca não deixou plantar. A quebra será de 25 a 40%. O próprio governo de Pernambuco pieleia junto à Sudene aumentar de 300 para 700 milhões os recursos para seu plano de obras que substituiu o plano de emergência. Ei que o plano de obras não absorveu a mão-de-obra liberada pelo plano de emergência. Mais ainda. Nesta semana, flagelados já invadiram a cidade de Tabira em busca de comida.

Não se combate a seca com desconfianças. Achar que quando a oposição defende o flagelado, faz subversão, que quando o governador pede mais recursos, faz politicagem, que quando o usinelro pede crédito, esconde incompetência, que quando o flagelado invade cidade, quer o comunismo, não adianta nada. Como também não adiantam declarações oficiales ufanistas; como não adianta transformar a seca em debate acadêmico entre CTA e CNPq ou jogar a Igreja contra o Estado.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 06/09/1981_