Para o PMDB pernambucano o jogo está feito. Marcos Freire é no Pals o primeiro candidato a governador lançado por um partido. O lançamento de sua candidatura, semana passada, diante de oito mil pessoas no Sesc, é revelador. Revela o caminho que percorreu. E o que ainda pretende percorrer. Quem quiser entender o jogo político de Pernambuco precisa conhecer as bases de sua candidatura. Três aspectos são importantes.

Primeiro: as diferenças entre Arraes e Freire cederam lugar à colaboração eleitoral. Arraes foi ao Sesc e discursou. Estareleceu os parâmetros de seu apoio. Cede à necessidade de unir as oposições contra o regime. Mas continua, dentro desta união, lider popular independente. Seu discurso enfatizou dois temas: a união dos brasileiros contra as multinacionals, como exigência da soberania econômica e política do País; e a necessidade de acelerar a organização do povo, como exigência de consolidação da democracia. Quer dizer, Arraes apóia Freire enquanto participam de mesmo programa e partido. Mas Freire não é continuidade de Arraes. Arraes é Arraes. Freire é Freire. Juntos estabeleceram o que se pode chamar de respeitosa colaboração pragmática. Que poderá ou não evoluir no correr da campanha.

Segundo: Freire e Arraes se submetem à necessidade de fortalecer a máquina partidária. Freire foi claro ao solicitar que a colaboração de que precisa passe pelo PMDB. Quer dizer, passe por Jarbas Vasconcelos, organizador e presidente do PMDB
local. A partir daí o PMDB vai se sentar à mesa de negociações com o PF, o PT e o PDT, na tentativa de transformar seu candidato em candidato das oposições unidas.

Terceiro: Freire pretende ser ponte entre os setores populares, a classe média e o empresariado nacional. Este o seu grande cacife eleitoral. Que o diferencia de Arraes. E que o leva a crescentes índices de popularidade. A imensa maioria dos olto mil presentes ao Sesc vinham da classe média urbana. Em seu discurso, Freire deixa absolutamente claro o respeito à livre iniciativa e à empresa privada. Num Pernambuco que se caracteriza pela radicalização social, Freire pretende reverter este processo. Esta sua posição é ao mesmo tempo sua grande força e sua grande vulnerabilidade.

Por um lado significa a possibilidade de consolidar no Estado um regime democrático descomprometido com radicalizações. O que interessa tanto à maioria das oposições, quanto ao próprio regime. Por outro, ao ganhar votos, significa, provavelmente, a derrota do regime. O que estimula fortes reações à sua candidatura. Daí, por exemplo, a defesa da adoção das sublegendas. Único meio de o PDS parar Freire. Daí também a ação inconclúável dos grupos radicales de direita que nem se interessam pela instauração da democracia, muito menos admitem a perda do poder em Penambuco.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 04/08/1981_