O PDS justifica seu pacote de casuísmos eleitorais como necessário para derrotar as oposições unidas. Este poderá ser um dos produtos. Não será o único. Pelo menos três subprodutos podem desde logo ser identificados. Todos interferindo com o compromisso do Presidente em fazer deste Pals uma democracia.
O primeiro subproduto é que mantém no poder, dentro do PDS, a atual cúpula do PDS, Vejam por exemplo o caso de Pernambuco. Mantidas as regras, não haveria sublegenda. O grupo de Moura Cavalcanti provavelmente indicaria o candidato a governador. Com a sublegenda, o grupo de Marco Maciel, com poder no PDS federal, mas não no estadual, terá a sua chance; quer dizer, o pacote de casuísmos é sobretudo a favor dos interesses do PDS enquanto se confundem com os interesses da cúpula federal do PDS. Com isto inaugura-se precedente perigoso. O casuísmo eleitoral leva ao casuísmo partidário. Em vez de se semear a concordia, pode-se estar a médio prazo promovendo o esfacelamento do partido oficial.
O segundo subproduto fica nítido quando analisamos o contraste entre as posições de Célio Borja e de Eurico Resende. Ambos do PDS, Borja, democrata liberal de boa cepa, é muito claro. Estes casuísmos não levam pais nenhum à estável democracia liberal. Resende também é muito claro. Importa antes de tudo assegurar a vitória do PDS. Qualquer que seja o preço. Que dizer, o PDS abre mão de defender suas juividades casuísticas através do manto uláfano da argumentação liberal democrática. Rasga a fantasia. Não é o PDS que se submete à democracia. É a democracia que deve se submeter ao PDS. Com isto, neste contexto de redemocratização, o PDS abre flancos. E quem aproveita é Tancredo Neves.
A veemente nota do PP foi um “tranco” nos dirigentes do PDS, e aula de política. No século 20, arte política é fazer colncidir os interesses setoríais de uma facção com os interesses mais gerais do aperfeiçoamento democrático. Foi o que Tancredo fez. Fez o PDS recuar na proibição das coligações. O que afetaria profundamente os interesses do PP. E o fez defendendo a redemocratização. Justamente o que o PDS não soube fazer. Seus líderes não conseguiram vir à Nação explicar o pacote como necessário à democracia. A redemocratização foi para um lado, o PDS para o outro. Afinal, não foi o PDS que prometeu fazer deste País uma democracia. Foi o presidente João Figueiredo.
Finalmente, o terceiro subproduto é que arriscamos inaugurar a era de manipulação dos índices políticos. As fórmulas eleitorais não pretendem mais aperfeiçoar a representatividade popular dos eleitos. Não se pretende mais aferir a vontade autêntica dos eleitores. As eleições, como índices políticos, medirão a competência do PDS em se impor aos eleitores. Tal como nos índices econômicos. Em vez de se medir o índice real dos preços de acordo com a vontade livre do mercado, selecionam-se os aspectos desta vontade que devam ser considerados. A partir daí, o problema é somente um. Quando nos afastamos da realidade real e começamos a lidar com uma realidade inventada, em pouco tempo perde-se a capacidade de controlar qualquer realidade. De controlar tanto a inflação quanto os eleitores.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 05/07/1981_