A religião tem seus dogmas. A economia também tem. Pegue por exemplo um economista monetarista. Ele quererá sempre acabar com os subsídios. O mercado de uma economia saudável deve funcionar sem ingerências. O governo não deve sustentar preço artificial nenhum. Para não beneficiar ninguém, estragando a concorrência e o capitalismo. Daí porque rezam para o Brasil acabar com os subsídios do Nordeste, da agricultura, da energia etc. Seja funcionário do FMI, banqueiro internacional, ou jovem economista de Chicago, todos são contra os subsídios monetários. Do governo em favor de determinado setor da economia, isto é, da sociedade. Que queiram acabar com o subsídio do governo para a sociedade, vá lá. Mas quando é que acabam com os subsídios da sociedade para o governo? Acabam com os subsídios indiretos através do governo?

Joelmir Beting, aqui na “Folha”, levantou o véu da conta GB-588 do Banco do Brasil. Quando uma empresa estatal não paga a prestação de sua dívida externa, o Banco do Brasil paga. Com dinheiro desta conta. É que o Banco é o closo avalista. Honra é honra. Até aí, tudo bem. Mas onde é que está o subsidio?

Fácil descobrir. A empresa estatal não deve só ao banqueiro internacional. Deve a fornecedores brasileiros também. Mais de 250 bilhões de atrasados! Ao banqueiro estrangeiro, o governo paga em dia. Ao empresário brasileiro, não. Pior ainda. Por honrar o aval, o Banco do Brasil cobra da estatal juros e correção. Pelo atraso, a estatal não paga ao brasileiro nem juros nem correção. Ou seja: duas dívidas, dois pesos, duas medidas e duas honras. Para o banqueiro receber bem, o empresário brasileiro recebe mal. Recebe menos: a diferença en
tre o cruzeiro do dia da fatura e o cruzeiro desvalorizado do dia do pagamento. Trocando em miúdos, os de cá de dentro subsidiam os de lá de fora. O Banco do Brasil é o intermediário.

São diversas as consequências desta Intermediação. Econômicas e políticas. Vamos às econômicas. Por um lado o empresário brasileiro, prevendo o atraso, aumenta o preço de seus serviços e produtos. Aumenta a inflação. Quer dizer, joga para cima do consumidor dos serviços da estatal o sub-sídio que teria de arcar sozinho para ajudar o banqueiro a receber em dia. Por outro, se o atraso é grande, o empresário não aguenta. Reduz suas atividades. Despede empregados. A mesa vazia do desempregado é uma das evidências do subsídio a favor do credor externo. Sem falar que víciamos mal os banqueiros. Se o Banco do Brasil paga sempre, o banqueiro não se preocupa com o risco. Empresta à boa e à má empresa. Ao bom e ao mau projeto. Em vez de pressionar para aumentar a produtividade estatal, estimula indiretamente a improdutividade tecnocrática.

Quanto às consequências políticas, nem é bom falar. Banqueiro estrangeiro não vota. Empresário que sofreu atrasos, consumidor que pagou mais e desempregados votam. Uma política econômica que leva o governo a intermediar este circuito de subsídios ajuda levar a Nação para circuito mais grave: para grande curto-circuito político.

(Joaquim Falcão)

_28/06/1981_