O presidente do PMDB em Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, lançou a candidatura de Marcos Freire ao governo do Estado. Arraes não gostou. Acha cedo demais. Acha impossível se manter um candidato nas ruas por catorze meses. Jarbas argumenta que Marcos une as oposições. Que as pesquisas eleitorais indicam Marcos como o melhor de voto (mesmo considerando-se o próprio Jarbas e Arraes). Que hoje, no Brasil, candidato nas ruas é fortalecer a redemocratização.

Neste debate não está em jogo o destino de Freire. Este todo mundo conhece. É líder da oposição no Senado e candidato declarado ao governo de Pernambuco. O que não se conhece é o destino de Arraes. Este ninguém conhece. Aliás, as oposições e o próprio regime gostariam muito de conhecer.

Dos líderes de antes de 64, Arraes é o único que mantém intactos carlsma e cacife eleitoral. Brizola, por exemplo, no Sul, procura apagar sua imagem de rebelde líder das massas operárias. Arraes, não. Preserva no Nordeste sua imagem de líder das massas camponesas. Brizola meteu-se em complicada situação partidária. Arraes, não. Transformou-se no vice-presidente do maior partido da oposição. Na cúpula do PMDB, é a principal voz da ala da esquerda. Com estatura para discordar de Ulisses Gulmarães. De igual para igual, como no episódio da ida de Ulisses ao Abi Ackel.

Em 82 duas vias se abrirão a Arraes. Ou
candidata-se ao Congresso, ou ao governo de Pernambuco. Paradoxalmente, o regime teme a primeira vila, e torce pela segunda. Se Arraes se candidata ao Congresso, será eleito deputado ou senador. E bem eleito. Quando chegar a Brasília, o Congresso já terá de volta suas prerrogativas. Arraes estará melhor protegido contra Lei de Segurança Nacional ou lei de ‘exceção. O cenário estará propício para, em dois ou três posicionamentos, Arraes assumir liderança nacional, restaurando a lembrança dos idos de 64. O que o regime quer evitar a todo custo.

Se se candidata a governador, terá que suplantar três obstáculos. Conseguir a indicação dentro do PMDB. O que depende de Jarbas Vasconcelos. Obter o voto da classe média. O que hoje não tem. Obter o apoio da Igreja. Dificilmente terá. Esta é a via do maior risco. A favor dela, estão setores do regime, que apóstam no desastre eleitoral das oposições. E um grupo que quer acabar o governo interrompido em 64.

Ale agora, nas encruzilhadas, Arraes evitou reencontrar o régime. De agora em diante, nas encruzilhadas, estarão também as outras alas da oposição. Como se dará este reencontro?

(Joaquim Falcão)

_Recife, 06/06/1981_