Sejamos otimistas. Imaginemos que conseguimos chegar às eleições de 82. Numa cabina eleitoral no sertão de Pernambuco, Severino vai votar. Em sua frente, a cédula. Agora é escolher seu v�ador, seu deputado estadual, seu deputado federal, seu senador, seu prefeito, seu vice-prefeito, seu governador e seu vice-governador. É muito voto de uma vez só. Será que não vai se atrapalhar, deixar em branco um ou outro, errar, não vai anular seu voto? Alguns políticos da ala conservadora do PDS local, vinculados a Moura Cavalcanti, acham que sim. Como sertanejo, Severino é bom nas coisas da vida. Mas é rude nas coisas das letras. Ainda por cima, falta-nos a todos a prática do votar.

Esta ala acha que a dificuldade de Severino será problema grave para o PDS. Raclocinam assim: a continuar a atual tendência eleitoral, em 82, Sul-Centro-Sul e grandes cidades serão redutos da oposição. Norte, Nordeste e Interior rural, redutos do governo. Ou seja, voto nulo ou em branco no sertão é voto na oposição. O que não seria grave se o PDS estivesse em situação folgada. Dificilmente estará. Acreditam que mesmo a competência, sutil e recôndita, de Marco Maclel será insuficiente para roubar Pernambuco às oposições reunidas: Marcos

Freire, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos, Armando Monteiro e Tales Ramalho. Acreditam que tudo será decidido pela bola sete. A bola sete, no caso seriam votos nulos e brancos do Interior. A partir deste quadro,
advogam como necessária a prorrogação dos mandatos legislativos.

A dificuldade de Severino pode até ser real. Mas com certeza não será quantitativamente expressiva. Mesmo se o for, é facilmente contornável. Basta, por exemplo, fazer eleições em dois domíngos. Como na França.

Ao pretender prorrogação dos mandatos com base na dificuldade de Severino, a ala conservadora do PDS, de forte base nas prefeituras do Interior, revela um medo e não resolve o problema. O medo é perder a disputa pelo PDS, para a facção de Maciel, ou para a de Nilo Coelho. Se os projetos de Maciel derem certo — Asa Branca, Suape, Alune, Viver etc. — o PDS arrisca até ganhar as eleições. A oposição e a ala de Moura Cavalcanti do PDS local perderão. Se os projetos não derem certo, prorrogar mandatos não adianta nada. Não resolve o problema econômico de Pernambuco, nem do Nordeste. Agrava o problema político. Desaponta Severino, que quer votar. Agrava a situação da falta de base popular do reglme.

Como diria nosso poeta, para a eleição de 82, o PDS quer contar com Severino. A prorrogação no entanto é severina. Para o PDS, para o nordestino e para a democracia.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 24/05/1981_