Não se pode redemocratizar este País, desconhecendo-se o Páis real. Nesta última visita do presidente Figueiredo à Sudene, só lhe mostraram a Sudene oficial. E através dela o Nordeste oficial. Dos gabinetes de ar refrigerado, segundo Nilo Coelho. Dos planos e projetos ufanistas da tecnocracia oficial.
Redemocratizar é tornar possível o reencontro do povo com os seus dirigentes. Reencontro entre o Estado e a sociedade civil integral. Dificilmente se poderá dizer que a Sudene contribuiu para este reencontro. Para um reencontro que não pode ser camuflado, quer pelas ilusões orçamentárias, quer pelo protocolo autoritário.
Cada vez que por aqui vem um ministro anunciando novas verbas para o Nordeste, o nordestino já cisma e desconfia. Ouve atento e calado. No dia seguinte corre a ver de onde vieram as novas verbas. Geralmente reencontra verbas que já estavam por aqui. Trata-se de simples mudança de rubrica. Remaneja-se do Nordeste para o Nordeste. Ilusão orçamentária é a ilusão das autoridades de que os nordestinos se iludem politicamente com as trocas de rubricas orçamentárias.
Vejam por exemplo o que aconteceu com as obras de Itaparica da Chesf. No primeiro tempo o governo paralisa as obras e corta as verbas. No segundo tempo, decide continuar depois de um atraso de 36 meses, quando o taxímetro dos custos continuou a funcionar. E reveste a volta dos recursos retirados com a aparência de novos recursos. Vejam também o caso do DNOCS. Grande parte das verbas anunciadas não são novas. São velhas e atrasadas. São por exemplo para pagar antigos processos de indenização que se arrastaram na Justiça. Os principais projetos de irrigação continuam
parados. Os recursos do PIN já devidos ainda não vieram. De novo mesmo, chegaram os recursos para o perdão das dívidas dos agricultores. Medida sem dúvida importante. Mas são recursos que infelizmente a seca e a cheia já levaram. E vão continuar levando, se os recursos forem sempre circunstanciais e a posteriori. O Nordeste precisa é de ação, e não de reação.
Já o protocolo autoritário é o artifício que, em nome das boas maneiras autoritárias, recolhe a mão estendida do diálogo. Que proíbe o senador Marcos Freire de discursar em nome do Senado durante a reunião da Sudene na presença do Presidente. Privando o Páis do exercício do diálogo franco entre homens que se sabe adversários, mas que não são inimigos.
Protocolo autoritário é o que continua a excluir os trabalhadores da Sudene. Um dos principais objetivos da Sudene é aumentar a oferta de emprego na região. No entanto, em seus órgãos, em seu Conselho, não há representantes dos trabalhadores. Por quê? Como é que se pode redemocratizar este Pals se não se redemocratiza o cotidiano de suas instituições? A Sudene sempre pretendeu decidir para os trabalhadores mas sem os trabalhadores. Fracassou. Necessita ser repensada.
Na mesma semana da visita à Sudene, Recife e Olinda, com suas multidões populares, saíram às ruas em torno de uma de suas mais belas tradições: a profissão do Senhor dos Passos. É preciso que a Sudene oficial reencontre a procissão do Senhor dos Passos.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 16/04/1981_