Quando se especula sobre o ministro das Relações Exteriores do futuro governo Tancredo Neves, duas possibilidades ocorrem de imediato. Se o ministro sair necessariamente do Itamarati, então os nomes dos embaixadores Sérgio Correia da Costa e Rubem Recupero estão em quase todas as listas. Se vier de fora, ao lado do nome dos paulistas Fernando Henrique Cardoso e Celso Lafer, surgem sempre os nomes de dois marinheiros: Marco Maciel e Renato Archer. Neste momento, porém, é tarefa razoavelmente impossível adivinhar quem tem mais chances, se são estes os nomes, quais os outros etc. Tancredo Neves mantém estratégico e vital silêncio.
O que não é adivinhação entretanto é identificar desde logo que no contexto internacional ou no contexto nacional o Ministério das Relações Exteriores deverá ser de fundamental importância. Por uma série de razões. Na cena infernacional, por exemplo, desde logo se identificam dois aspectos favoráveis. Primeiro, a redemocratização que pouco a pouco se processa na América Latina — Argentina, Uruguay, Brasil —, ainda não se traduziu numa nova política externa latino-americana. O que deverá acontecer. O futuro ministro será naturalmente o líder de uma nova postura brasileira, com possibilidades de influenciar toda a América Latina, diante da comunidade internacional. Segundo, existe hoje um vazio
mundial muito grande na política de não-alinhamento. Ou melhor, em termos da posição do Terceiro Mundo. O desaparecimento de Indira Ghandi simbolicamente encerra uma geração de líderes terceiro mundistas. Uma nova geração deverá surgir. O Brasil não poderá ficar alheio a este movimento. Terá inclusive condições de liderá-lo.
Na cena nacional, o poder do Itamarati deverá ser reforçado por duas condições já existentes. Ou pelo menos já esboçadas. Na medida em que a segurança nacional deixa de ser questão exclusiva aos militares, e na medida também em que a dívida externa deixa de ser privilégio das decisões solitárias da Seplan, o Itamarati será chamado a atuar mais fortemente nestes dois setores. A competência técnica de nosso corpo diplomático, lido, sem favores, como um dos melhores do mundo, e a independência política que o Itamarati sempre conseguiu manter, mesmo em situações de ataque cerrado, favorecerão a atuação do futuro ministro. Este será um ministério capaz de forjar com certeza uma liderança nacional, e até uma liderança internacional.
(Joaquim Falcão)
_18/12/1984_