O adiamento do comício de Tancredo Neves no Recife deve-se a vários motivos. Deve-se, por exemplo, à cautela do governador Roberto Magalhães, evitando acontecimentos que eventualmente ensejem atitudes radicais por parte dos opositores a Tancredo. Como se deve também às prováveis dificuldades das bases pedessistas mais conservadoras (das quais o governador não quer abrir mão para os malfufistas restantes) aceitarem, no mesmo palanque, Magalhães, Arraes, Maciel, Jarbas e Marcos Freire. O importante, porém, é constatar que o pano de fundo do palanque que não houve, e que provavelmente não haverá, é o controle político de Pernambuco, lendo em vista sobretudo as eleições de 86.

Tudo indica que Miguel Arraes deverá ser candidato ao governo de 1986, provavelmente pelo PMDB. Se isto acontecer, uma das lições que a história oferece é que para sua candidatura ser vitoriosa, necessita de alianças conservadoras, sobretudo no interior do Estado. Arraes precisa encontrar o seu novo Paulo Guerra (vice de Arraes em 1962, líder do antigo PSD dos “coronéis”). Como, também, tudo indica que a Frente Liberal de Magalhães e Maciel deverá tentar ampliar seus quadros e forjar novas alianças incorporando políticos de centro-esquer. O movimento será
justamente o inverso. O motivo é claro. Sem vinculação de votos, a Frente Liberal poderá até fazer a maioria dos vereadores e dos deputados estaduais e federais. Mas dificilmente fará o governador. Os nomes disponíveis pelo PMDB são hoje eleitoralmente mais expressivos do que os do PDS.

Por tudo isto, não pode passar despercebido um fato tão simples, quanto significativo. Nesta semana Roberto Magalhães foi à usina Laranjeiras inaugurar um colégio e um ambulatório. A saudação foi feita por um dos proprietários da usina, Armando Monteiro Filho, o líder do PDT em Pernambuco. É claro também que Magalhães e Maciel tenderão a buscar suas novas alianças políticas justamente entre os políticos como Armando Monteiro Filho (PDT-PE), Sérgio Guerra (PMDB-PE) e por que não o deputado tancredista Fernando Lyra (PMDB-PE), que são líderes com eleitores não somente nas bases do atual PMDB, mas também com apoio dos empresários e eventualmente até das bases tradicionals do PSD/PDS de Pernambuco.

(Joaquim Falcão)

_11/11/1984_