A “Folha” publicou domingo o artigo “Nordeste: falta só a vontade política”, do deputado e engenheiro Paulo Maluf. Nele, Maluf, depois de constatar quatro conclusões inevitáveis sobre o Nordeste, se propõe a realizar, em seu eventual governo, quatro revoluções básicas: a revolução da água, a revolução da terra, a revolução da energia e a revolução do homem. Ao término das quais o povo nordestino estaria integrado no processo do Brasil e o Nordeste redimido. Trata-se evidentemente de um discurso de candidato, pleno de promessas bíblicas.
Como alertou o prof. José Antônio Lavareda, o artigo é um discurso do tipo que os italianos chamam de “pigliatutto”. Toca em todas as questões levantadas. Acena com políticas que beneficiariam indiscriminadamente a todos os grupos sociais da região. A leitura almejada parece ser uma só. Com Maluf na Presidência todos lucrariam. Quer dizer, no fundo o título está errado. Para ser mais claro deveria ser “Nordeste: falta só eleger Maluf…”. É um discurso menos que Juscelino. É apenas Ademar de Barros.
Ninguém retira de qualquer candidato o direito de fazer discursos e promessas. Como também ninguém pode retirar dos leitores o direito de ler os discursos à sua própria maneira. O nordestino, por exemplo, há muito
que só lê discursos confrontando-os com a realidade. Há muito que só acredita em palavras que correspondam aos atos. Como lembra ainda o prof. Lavareda, em termos de Nordeste, Maluf nunca foi solidário com os reclamos regionais. Muito menos levantou em defesa dos grupos menos privilegiados. Na verdade, por aqui, o candidato nunca foi além de alianças com a oligarquia mais conservadora.
Aliás, a separação entre palavras e atos parece ser o forte nesta semana. Pois ao mesmo tempo em que Maluf prometeu, claramente prometido, de que acabaria com todas as mordomias de Brasília, nunca se viu tanta mordomia assim para uma simples convenção partidária. O candidato está acostumando mal sua base eleitoral. Por isto mesmo não se deve confundir a cordialidade nordestina e sua intrigante passividade diante de discursos não cumpridos, com uma qualidade que o nordestino não tem: a de acreditar em qualquer discurso. Aliás, em matéria de crença, o nordestino só acredita mesmo no Padre Cicero. E assim mesmo, nem todos. Joaquim de Arruda Falcão
# Política científica
As instituições científicas e os cientistas brasileiros não escaparam ilesos a política econômica e antinacional do governo Figueiredo. Foram duramente atingidos. Sobretudo se considerarmos que a área depende fortemente da Seplan. E que a Seplan, pela estrutura administrativa que tem e pelos objetivos imediatos que busca, se interessa muito pouco pelo desenvolvimento da ciência e tecnologia produzidas por brasileiros.
Na medida em que o País se prepara para uma Constituinte e uma nova Presidência, espera-se que voltem à tona problemas nestes últimos anos esquecidos e agradados. Pois não se constrói neste final de século 20 uma nação soberana apenas com negociações com credores internacionais. () País será tanto mais independente quanto maior sua capacidade de produzir conhecimento científico e tecnológico.
Três problemas graves precisariam ser enfrentados. Primeiro, estancar a política de recursos decrescentes. O principal fundo nacional de apoio a ciência e tecnologia, o FUDCT, representava, em 1975, 1,1% do orçamento da União. Em 1984 representa apenas 0,2%. O que significa: obsolescência de máquinas e material, salários não competilivos e programas descontinuados. Segundo reformular a participação da comunidade científica no processo de dec
são da política governamental. Os cientistas afastados das decisões científicamente relevantes, como por exemplo o Acordo Nuclear, foram também afastados de decisões importantes sobre a própria área. Agora mesmo, o governo Figueiredo, na busca de um empresário de 200 milhões de dólares, irá comprometer o País junto ao Banco Mundial com uma política científica fortemente criticado pela comunidade. Compromelimento que manietará a próxima Presidência. E que para fortalecer determinadas áreas, corre-se o risco de sacrificar a maioria delas. Finalmente, a crônica indefinição de objetivos e competências entre as principais agências federais de apoio à ciência e tecnologia não aproveitou a nenhuma delas. Entraqueceu a todas,
Diante do centralismo decisórios da Se-plan, os esforços feitos pelos técnicos o administradores destas agências e as pres-soes feitas pela comunidade científica foram insuficientes para resolver estes problemas. Se o País tiver porém, no próximo ano, uma política econômica mais democrática e nacional, teremos provavelmente também, ciência e tecnologia mais fortalecidas.
(Joaquim Falcão)
_09/08/1984_